Entrevista - Isabelle Stengers

A representação de um fenômeno científico é uma invenção política.
Entrevista com Isabelle Stengers
 
A reportagem e a entrevista são de Roberto Ciccarelli e publicadas no jornal Il Manifesto, 23-09-2008. A tradução é de Benno Dischinger.
 
“A ciência – afirma Stengers – tende a eliminar o conflito que a opõe ao real em nome de uma política da lei e da ordem. Para entendê-lo, basta ler A estrutura das revoluções científicas de Thomas Kuhn: o que a ciência moderna ensina aos cientistas é resolver problemas “normais”, quebra-cabeças, para depois passar a outro “paradigma”. O problema é, ao invés, o modo pelo qual os cientistas encaram os fenômenos, o modo pelo qual a ciência declara “real” um fenômeno mais do que outro, o modo pelo qual uma prática é definida como “científica” com respeito a outra prática julgada “não científica”. A representação de um fenômeno científico é uma invenção política. Para mim, esta invenção interessa na medida em que não se coloca num horizonte no qual é preciso garantir uma ordem e uma hierarquia entre a realidade com respeito à imaginação, entre o que é o que deveria ser”.

O que é filosofia?

"O homem, ao que parece, não pode deixar de filosofar. Impossível fazê-lo, e se os detratores entendessem isso, veriam que zombar da filosofia seria ainda uma espécie de filosofia, embora má."
 
(W. Luijpen, "Introdução à Fenomenologia Existencial")
 
 
Texto de A. C. Ewing
 
"Uma definição precisa do termo "filosofia" é impraticável. Tentar formulá-la poderia, ao menos de início, gerar equívocos. Com alguma espirituosidade, alguém poderia defini-la como "tudo e nada, tudo ou nada...". Melhor dizendo, a filosofia difere das ciências especiais na medida em que procura oferecer uma imagem do pensamento humano - ou mesmo da realidade, até onde se admite que isso possa ser feito -- como um todo. Contudo, na prática, o conteúdo de informação real que a filosofia acrescenta às ciências especiais tende a desvanecer-se até parecer não deixar vestígios.

Ciência, Kierkegaard e verdade

"The old scientific ideal of episteme — of absolutely certain, demonstrable knowledge—has proved to be an idol. The demand for scientific objectivity makes it inevitable that every scientific statement must remain tentative for ever. It may indeed be corroborated, but every corroboration is relative to other statements which, again, are tentative."

(K. Popper, The Logic of Scientific Discovery)

Atualmente a ciência permeia nossas vidas como língua franca, como padrão de racionalidade. Se uma simples pasta de dente, conforme sua propaganda, foi desenvolvida após anos de pesquisas científicas, não há qualquer dúvida de sua qualidade, de sua competência para os fins a que se destina. A mise en-scène do comercial, com pessoas de aventais brancos em uma espécie de laboratório, declarando a pasta de dente como resultado de inúmeras pesquisas só serve para legitimar ainda mais a força do científico em nossa sociedade. O pensador brasileiro Rubem Alves (1933-2014) transcreveu a passagem abaixo, do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813 - 1855), em seu livro "Filosofia da Ciência". O objetivo era destacar esta "insinuação" científica de conhecer a realidade em toda a sua plenitude, uma reivindicação incompatível, segundo Rubem Alves, com as possibilidades do método científico cujos propósitos se resumem a busca de fatos que comprovem ou neguem as suas teorias ou, nas palavras do próprio autor uma abordagem sobre a realidade onde o fato "só tem significação na medida em que acrescenta ou diminui a plausibilidade de uma teoria". O discurso científico se pretende verdadeiro na medida em que acredita representar a realidade tal qual ela é. Rubem Alves diria ser impossível reproduzir fidedignamente o "relógio" sem jamais abrí-lo. O que a ciência nos pede aqui, afinal, é um ato de fé...

"Se um dançarino desse saltos muito altos, poderíamos admirá-lo. Mas se ele tentasse dar a impressão de poder voar, o riso seria seu merecido castigo, mesmo se ele fosse capaz, na verdade, de saltar mais alto que qualquer outro dançarino. Saltos são atos de seres essencialmente terrestres, que respeitam a força gravitacional da Terra, pois que  o salto é algo momentâneo. Mas o vôo nos faz lembrar os seres emancipados das condições telúricas, um privilégio reservado para as criaturas aladas..."

(Kierkegaard, "Concluding Unscientific Postscript")

A verdade científica como um ato de fé - Rubem Alves

“O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas, e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas”.
 
(Nietzsche - Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral)
 
 
"A mesma obsessão dos gregos continua presente em nossa ciência. Que buscam os cientistas? Você poderá responder que, freqüentemente, eles estão à procura de fatos. E isto é correto. Mas quais são os fatos específicos que os preocupam? Por que fatos de um tipo e não de outro? Os cientistas só buscam os fatos que são decisivos para a confirmação ou negação de suas teorias. Fatos são, para a ciência, como testemunhas num tribunal. Em si mesmos não possuem importância alguma. Sua função se resume à confirmar ou negar as alegações da promotoria ou da defesa e isto que importa. E é disto que irá depender o réu. Um fato só tem significação na medida em que acrescenta ou diminui a plausibilidade de uma teoria. Os cientistas que fotografaram as estrelas próximas do Sol, durante um eclipse, não fotografaram pelo prazer de colecionar fotos. O que estava em jogo era a teoria da relatividade, e os fatos obtidos pelas fotografias poderiam corroborá-la ou negá-la.

Hume: paixão e razão

"A razão é, e só pode ser, escrava das paixões; só pode pretender ao papel de as servir e obedecer a elas."
(David Hume - Tratado da Natureza Humana)
 
David Hume (1711-1776), filósofo escocês do século XVIII, escreveu sua obra mais contundente quando tinha apenas 28 anos. Embora seja considerado por muitos uma das grandes obras da história do pensamento, o "Tratado da natureza humana" (1739) não ganhou a repercussão esperada pelo próprio autor que, constatando que se tratava de um problema de estilo, e não de conteúdo, decidiu reescrevê-lo com uma linguagem mais adequada ao público em "Enquiry Concerning Human Understanding" (1748). Grande parte de suas investigações estão relacionadas à questão do conhecimento e, neste sentido, Hume é considerado um empirista por conta de suas convicções a respeito das construção do conhecimento humano a partir de sua relação com o mundo que o cerca, ou seja, suas experiências. Não seria exagero compreender o pensamento de Hume como uma contraposição materialista ao dualismo proposto por Descartes, um século antes. Para Hume, a alma como "substância pensante" (res cogitans), tal como proposto pelo cartesianismo, não existe e o que nós chamamos de "alma" seria apenas um conjunto de fenômenos inconscientes criados a partir das percepções e afetos do mundo que nos circunda. A "razão" seria, entrementes, somente a combinação de representações que, por sua vez, "recolho" do mundo.
 
Outra questão pertinente deste grande pensador é debate permanente entre as noções de "desejo" e "razão", profundamente desenvolvida (ainda que em uma nomenclatura diferente, onde "razão" é elaborada sob o conceito de "vontade", a partir de Rousseau) por Kant 46 anos mais tarde, em 1785, em sua obra clássica "Fundamentação da Metafísica dos Costumes". No trecho que separei, retirado do livro "A Treatise of Human Nature" (1739), David Hume formula sua oposição à concepção de supremacia da razão sobre as pulsões carnais, constatando as últimas, como as verdadeiras responsáveis pelo "agir" humano. Em sua perspectiva, é preciso buscar os motivos do "agir" nas paixões, sendo a "razão" sempre incapaz de impedir um impulso passional.

Sócrates e o inconformismo

"How you o athenians have been affected by my accusers I cannot tell but I know that they almost made me forget who I was so persuasively did they speak and yet they have hardly uttered a word of truth."
 
(Plato, Apology)
 
Sócrates (470/469 - 399 a.C), nascido em Atenas, é considerado por muitos o maior filósofo de toda a história do pensamento. Tudo que se sabe deste grande sábio nos foi transmitido, entre outros, por seus discípulos Platão e Xenofonte. Se o segundo, embora sem brilho e nem profundidade, nos legou o aspecto prático (moral) da filosofia socrática, foi Platão quem desenvolveu, em seus conhecidos diálogos, toda a filosofia de seu mestre. Embora seja custoso discernir o fundo socrático das especulações do genial discípulo, é lugar comum a ideia de que as primeiras obras (Lacques, Críton etc) tivessem grande influencia dos ensinamentos socráticos, característica que tende a devanecer à medida que a autonomia especulativa de Platão se desenvolve (A República, Parmênides etc). A característica mais marcante da filosofia socrática é o inconformismo com o estado das coisas, opiniões e conceitos. Ao caminhar pelas ruas de Atenas, Sócrates punha em prática sua formidável ferramenta: o método de análise conceitual. Mas em que consistia tal método? O objeto da "ciência" socrática não era o sensível, o particular, o mutável, mas sim o inteligível, o conceito que se exprime pela definição precisa daquilo que "é". Este conceito vem à tona pela dialética (ligada aos modos de conhecimento da psykhé: doxa > episteme), em um movimento indepedente da atividade do pensamento, neste sentido, Sócrates fundamentou o "inconformismo" ao negar a possibilidade de conhecimento através de "opiniões" ou "paixões".

Max Weber e o "triunfo" do capitalismo

"The development of the concept of the calling quickly gave to the modern entrepreneur a fabulously clear conscience – and also industrious workers; he gave to his employees as the wages of their ascetic devotion to the calling and of co-operation in his ruthless exploitation of them through capitalism the prospect of eternal salvation."
 
(Max Weber, General Economic History)
 
No discurso moral contemporâneo a felicidade será tanto maior quanto mais frequentemente você sentir prazer ao longo da existência. A palavra-chave aí seria: desejo. Quanto mais desejo, mais satisfação, quanto mais satisfação, mais felicidade. Vivemos uma sociedade liberal que é capaz de fazer "brotar" estes desejos (de forma quase nuclear, creio eu!) e oferecê-los em forma de bens e serviços. É preciso ter em conta, no entanto, que existe a possibilidade do desejo não se converter em satisfação, destarte, a sociedade deve ser capaz de estimular o desejo e dar meios para que estes desejos se convertam em satisfação e, portanto, felicidade. Neste sentido, para que possamos ser felizes é preciso que tenhamos desejos e, por conseguinte, meios para saciá-los. Mas porque o desejo é necessário? Porque a felicidade depende da satisfação e a satisfação, por sua vez, depende do desejo. Neste sentido, é possível compreender o homem, e até mesmo definí-lo, como uma "máquina desejante" (Deleuze). Não seria exagero dizer que desenvolve-se uma concepção de homem (homem desejante) que fundamenta a orientação econômica de nossa sociedade, mas este discurso é recente. Há algum tempo atrás o paradigma era outro: portar-se bem como condição de uma salvação transcendente. A moral cristã e, consequentemente, a busca da salvação, preconizam uma "troca" e respeitar o Rei (braço armado de Deus), por exemplo, era necessário. No entanto, entre esta formulação e a busca desenfreada pela satisfação daquilo que desejamos, tão evidente no discurso contemporâneo, houve uma configuração intermediária, herdeira da legitimação divina do dever: a legitimação capitalista do dever, sobretudo quando a "nobreza" do labor e o respeito com o patrão ganham espaço nas sociedades capitalistas.

Bentham, Mill e o Utilitarismo Clássico

"The doctrine that the basis of morals is utility, or the greatest happiness principle, holds that actions are right in proportion as they tend to promote happiness, wrong in proportion as they tend to produce the reverse of happiness." (John Stuart Mill, Utilitarianism)

 

Embora muito do núcleo conceitual do Utilitarismo remonte a pensadores como Francis Hutcheson (1694–1746), David Hume (1711-1776) entre outros (Cumberland, Shaftesbury, Gay), o filósofo britânico Jeremy Bentham pode ser considerado o fundador da teoria moral conhecida como "Utilitarismo". John Stuart Mill, seu sucessor, foi intesamente influenciado pela Philosophical Radicalism (Jeremy Bentham [1748–1832], John Austin [1790–1859], James Mill [1773–1836]), embora discorde no que concerne a natureza da felicidade e as motivações humanas. Qualquer reflexão sobre "utilitarismo" clássico, requer uma aproximação da noção de "felicidade". Conforme exposto logo no primeiro parágrafo de sua obra Principles of Morals and Legislation, para Bentham: "nature has placed mankind under the governance of two sovereign masters, pain and pleasure", sendo a "felicidade" o simples resultado desta equação. Em seu livro Utilitarianism, John Stuart Mill argumenta que a "felicidade" é a única coisa desejável em si mesma (Capítulo IV, Utilitarianism). O Utilitarismo é considerado uma das mais persuasivas e poderosas aproximações da ética normativa e sua justa apreensão deve partir de seu contexto histórico. Os utilitaristas clássicos (Bentham e Mill) ocupavam-se com a reforma legal e social, sendo o utilitarismo uma "ferramenta" para a transformação de práticas sociais questionáveis, bem como leis corruptas e inúteis.

O homem é condenado a ser livre - Sartre

Influenciado, sobretudo, pela filosofia fenomenológica de Husserl, o pensador francês Jean-Paul Sartre destacou-se por suas formulações sobre o "existencialismo". Uma interpretação possível do pensamento de Sartre é reconhecê-lo como continuação de uma corrente que se inicia, de forma sistemática, no dualismo platônico, ao identificar duas dimensões distintas que compõe o "humano" (psykhé e sôma), onde o lógos/Àóyoç (potência da alma cuja sede é na cabeça e preside a vida intelectual) seria responsável pelas deliberações racionais e, portanto, livres dos afetos do corpo ao mundo sensível. Com Descartes, o conceito de livre-arbítrio ganha contornos modernos e o cogito cartesiano fundamenta a distinção entre a res cogitans e a res extensa, ou seja, há algo que duvida e, portanto, capaz de pensar e deliberar. A contribuição de Kant, que segregou as noções de desejo x vontade, é evidente: o corpo deseja, mas a "justa" decisão deve ser obra de uma razão "afiada" e fundadora de um Imperativo Categórico. Neste resumido "trajeto" que desenhamos, Sartre seria o ápice desta concepção, que desde a Grécia Antiga, nega a causalidade da existência humana e se consagra na famosa expressão: "a existência precede a essência".

“Só pelo fato de que tenho consciência dos motivos que solicitam minha ação, esses motivos já são objetos transcendentes para minha consciência, estão fora; em vão buscaria agarrar-me a eles, escapo disso por minha existência mesma. Estou condenado a existir para sempre além de minha essência, além dos móveis e dos motivos de meu ato: estou condenado a ser livre. Isso significa que não se poderia encontrar para a minha liberdade outros limites senão ela mesma, ou, se prefere, não somos livres de cessar de ser livres. (...) O sentido profundo do determinismo é o de estabelecer em nós uma continuidade sem falha da existência em si. (...) Mas em vez de ver transcendências postas e mantidas no seu ser por minha própria transcendência, supor-se-á que as encontro surgindo no mundo: elas vêm de Deus, da natureza, da ‘minha’ natureza, da sociedade. (...) Essas tentativas abortadas para sufocar a liberdade sob o peso do ser – elas desmoronam quando surge, de repente, a angústia diante da liberdade – mostram bastante que a liberdade coincide no fundo com o nada que está no coração do homem.”

Sartre, L'Êtr et le néant (O ser e o nada), Quarta parte, cap I, Gallimard, pp.515-516

A alegoria da caverna, por Jean Brun

Muito provavelmente, a formulação filosófica mais conhecida, nos dias de hoje, é a alegoria da caverna, de Platão. A "metáfora" foi escrita no período denominado de "maturidade" da filosofia platônica, ou seja, quando suas reflexões já exprimiam uma filosofia muito própria, mais autônoma em relação ao pensamento de seu grande mestre, Sócrates. Em sua obra denominada "Platão" (1985), o filósofo Jean Brun traz uma interessante interpretação à famosa história.
 
"O livro VII da República inicia-se com um dos textos mais célebres de Platão: a alegoria da caverna. Sócrates pede a Glauco que imagine homens presos numa caverna e de costas para a entrada de onde vem a luz; por trás brilha, ao longe, uma lareira acesa num ponto alto; entre esse lume e os prisioneiros existe uma estrada alta e ao longo dessa estrada corre um murinho. Imaginemos agora que homens vão andando ao longo dessa estrada, levando objetos de todas as formas, assim como figuras de homens e animais que ultrapassam a altura do muro, uns falam, os outros seguem calados. Os prisioneiros da caverna, podendo apenas ver as sombras que se projetam no fundo da sua prisão, tomam-nas pela realidade e atribuem-lhes palavras que ouvem pronunciar. Esses prisioneiros são a nossa imagem: a prisão é o nosso mundo visível, as verdadeiras realidades constituem o mundo inteligível e, no extremo desse mundo inteligível, está a ideia do Bem que só dificilmente se apreende mas que está na origem de toda a luz. Para passar desse mundo visível para esse mundo inteligível, a nossa alma tem de operar um movimento de conversão e de regresso ao seu princípio. Mas a coisa é difícil, pois os nossos olhos estão habituados à penumbra da nossa prisão e a passagem da escuridão para a luz cega-nos; por isso, se se libertar esses prisioneiros, a maioria tentará voltar para o fundo da sua prisão e amaldiçoará aqueles que os quiseram libertar.

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