A ciência como negação do sujeito

Excerto da obra "Ética e Pensamento Científico"
Jean Ladrière

"Qual o "contexto cultural" da bioética? O termo "contexto" designa o meio ambiente, aquilo que cerca o conjunto dos fatos culturais nos quais se situa a biologia atual. O fato fundamental é "o poder do homem sobre a vida" (Cf. Le pouvoir de l'homme sur la vie. Paris, Desclée de Brouwer, 1976). Ora, se há um poder do homem sobre a vida, é porque o homem dispõe hoje de certo saber sobre a vida. A questão filosófica, que aqui se coloca, é a de determinar a natureza desse poder, de compreender o porque da ligação entre saber e poder. A cultura grega dispunha de um saber de grande alcance. Mas não conduzia a um amplo poder. Ao contrário, o saber moderno, de caráter científico, se faz acompanhar de um extraordinário poder. Devemos examinar por que é assim. Colocar-se essa questão é, ipso facto, colocar-se a questão mesma da natureza e do estatuto da ciência.

Uma primeira observação se impõe: de forma alguma a ciência constitui um fenômeno natural. A atitude científica é muito diferente daquilo que a linguagem filosófica denomina a "atitude natural" ou a "visão do mundo natural", tal como se exprime nos mitos, nas tradições, nos provérbios, nas sabedorias e nas concepções de mundo. A atitude científica é de natureza artificial. Em outras palavras, a ciencia é um fenômeno histórico, situado de modo preciso no tempo e no espaço. Mesmo que o fenômeno científico se torne hoje universal, permanece verdade que nasceu em lugares bem determinados e num momento preciso da história. Claro que, se a ciência pode surgir foi porque houve, no espírito humano, possibilidades fundamentais que ela apenas revelou. Cabe-nos interrogar sobre a natureza dessas possibilidades e compreender o que se passou no momento em que elas se manifestaram e começaram a produzir frutos visíveis. Ora, só podemos perceber corretamente a natureza de um fenômeno com certo recuo. Os fundadores da ciência moderna tinham certa consciencia daquilo que faziam. Mas não dispunham do recuo que temos hoje, após vários séculos de pesquisa e de progresso.

Naturalmente, não podiam perceber, pelo menos de modo distinto, a aplicação da ciência na vida dos homens e na cultura em geral. Sem dúvida, podiam adivinhar e entrever o que iria ocorrer, mas não percebê-lo claramente. Hoje, o fenômeno está bastante maduro e bem determinado para que possamos começar a descobrir, por suas conseqüências mesmas, aquilo que ele é exatamente. A partir do ponto em que chegamos, a questão essencial consiste em perguntar como se processou a transição da atitude natural à atitude científica. Claro que não podemos perceber diretamente essa transição através das peripécias históricas, entendidas no sentido da ciência dos historiadores. Porque ela foi feita no implícito. Só podemos falar dela, numa perspectiva retrospectiva, tentando apreendê-la através de seus efeitos. Portanto, o que podemos falar a esse respeito depende da hipótese filosófica. Não se trata tanto de reconstituir uma gênese, mas de elucidar as condições de possibilidade daquilo que se produziu no espírito humano e comandou o desenvolvimento histórico do qual somos os herdeiros.

No intuito de clarear essa questão, vamos nos reportar aos pontos de vista de um filósofo cujo pensamento ilumina o fenômeno moderno da ciência com uma luz bastante profunda: Martin Heidegger. De modo mais preciso, nos referiremos ao texto intitulado "A época das concepções do mundo" (Die Zeit des Weltbildes). Sobre as condições de possibilidade da ciência moderna, Heidegger tem uma tese fundamental: essas condições são de natureza metafísica. Para ele, o dinamismo implícito da ciência moderna constitui uma forma de "metafisica". O que isso quer dizer? Ao falarmos de metafísica, geralmente visamos certa parte da filosofia ocupando-se dos fundamentos da realidade ou, o que dá no mesmo, da realidade em seus aspectos mais fundamentais. Heidegger toma o termo "metafísica" num sentido bastante particular e determinado, só se esclarecendo totalmente por todo o contexto de sua filosofia. Em termos bastante simplificados, a metafísica é, para ele, uma certa maneira de determinar o ente. E o que ele chama de "ente", em conformidade com toda a tradição filosófica ocidental, é tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, pode servir de sujeito ao verbo "ser" na terceira pessoa do singular, por conseguinte, tudo aquilo que, a qualquer título, pode ingressar no campo da experiência quer se trate de percepção, da imaginação, do sentimento, do pensamento especulativo, da experiência poética ou da experiência mística.

Trata-se de tudo aquilo que, de um modo ou de outro, é, de tudo aquilo que, de uma ou outra, possui uma forma qualquer de realidade. Ao considerarmos um elemento da realidade como ente, nós o consideramos apenas na medida em que podemos aplicar-lhe este termo simples e misterioso, eminentemente filosófico: ser. Trata-se de um termo absolutamente indeterminado e neutro; e que vale por sua generalidade mesma. Portanto, segundo Heidegger, a "metafisica" é um modo de determinar o ente, de interpretá-lo, de caracterizá-lo e de compreendê-lo. Não se trata, necessariamente, de uma espécie de visão intelectual, de uma concepção explicitamente formulada ou de um discurso sistemático sobre o ente. Sem dúvida, a compreensão do ente pode se exprimir num discurso. Mas ela é, antes de tudo, implícita, vivida. A interpretação do ente é, primordialmente, uma atitude prática e efetiva em relação a ele, um modo de nos situarmos diante dele, de nos relacionarmos com ele. Portanto, no sentido heideggeriano, a metafisica é, primordialmente, uma determinação fundamental do ente que se constitui no implícito e que só é tematizada no discurso de modo secundário.

A segunda tese de Heidegger, a propósito de nosso problema, é a de que cada época da história ocidental se caracteriza por certa forma de metafísica. Por exemplo, esta grande unidade histórica, que denominamos a cultura grega, caracterizou-se por certa metafisica, por certa maneira fundamental de comportar-se em relação ao ente. Talvez o termo que melhor exprime a atitude típica da metafisica grega seja (sempre segundo Heidegger) o de "poiesis". Este termo grego tornou-se, na língua francesa, o termo "poesia", designando certo gênero literário. Mas precisamos considerá-lo, aqui, em seu sentido primeiro: a "poiesis" é o que é relativo ao "poiein" ao "fazer", entendido no sentido do "fazer" artístico, por conseguinte, no entido da criação. Assim, considerada como uma forma de metafisica, a metafísica constituiu um tipo de relação com o ente, na qual ele é interpretado na perspectiva da atividade criadora do artista. Poderíamos evocar aqui o Timeu, no qual Platão põe em cena, tendo em vista descrever a estrutura do cosmos, um "demiurgo", vale dizer, um grande artista que modela o mundo conforme um modelo ideal.

O que vai nos interessar mais especialmente aqui é a forma de metafisica que domina os tempos modernos, isto é, a época da ciência, época que ainda é a nossa e da qual poderíamos dizer que começou com a filosofia de Descartes; portanto, no início do século XVII. Segundo Heidegger, teria havido, em relação ao ente, uma atitude inteiramente característica dessa época, enquanto distinta da metafisica típica da Idade Média e da metafisica da antiguidade grega. Ele a chama de a "metafisica da representação". O termo "representação" é extremamente significativo. Como todos os termos filosóficos, ele se baseia numa metáfora e, mesmo, na verdade, numa dupla metáfora: uma metáfora diplomática e uma metáfora teatral. Falamos de "representação" para caracterizar o estatuto de um "representante", no sentido de um encarregado de uma missão, de um personagem que age em nome de outro. O "representante" ocupa o lugar daquele de quem é o delegado e que o "representa".

Mas o termo "representação" possui também um sentido ligado ao contexto teatral. Falamos da "representação" de uma peça para designar a realização efetiva, num palco, de um conjunto de ações imaginado por um escritor. Tomada neste sentido, a "representação" se identifica, em suma, com o espetáculo. Talvez esse segundo aspecto da metáfora seja o mais importante. A peça, que constitui o objeto de representação, é encenada diante dos espectadores que, coisa significativa, encontram-se imersos na obscuridade e são como que postos entre parenteses. O espectador é, por assim dizer, um puro olhar abstrato. Por sua vez, o ator está presente, diante espectador, como espetáculo, como objeto.

Do ponto de vista filosófico, a metáfora da representação é utilizada para significar que o ente é interpretado como um espetáculo dado a um espectador; e aquilo que é assim dado em espetáculo, desempenha o papel de um substituto da realidade. Mas o espectador, na ocorrência, é de certa forma desvanecente: não é um ente ao lado dos outros, mas um puro olhar. Esse puro olhar, este puro espectador, é o que a filosofia moderna chamou de "sujeito". Se acompanharmos a evolução da filosofia moderna em suas diferentes peripécias, perceberemos que a noção de sujeito cada vez mais se empobrece. Em Descartes, o sujeito ainda é uma substância, uma "coisa pensante". Em seguida, porém, o conceito de sujeito se purifica. O sujeito se torna, por assim dizer, uma pura função do olhar; converte-se nesta pura instância pela qual o mundo é constituído em espetáculo. A realidade se esgota no fato de ser para um sujeito; o ente é constituído em objeto e interpretado como tal.

[...] Na época em que escreveu Descartes, não se tratava ainda da questão da objetivação dos fenômenos psíquicos. O que se recomendava era a colocação entre parenteses das qualidades segundas. Toda a atenção do espírito científico se concentra nas qualidades primeiras, nessas qualidades independentes da intervenção do sujeito. Segundo Descartes, essas qualidades primeiras constituem as determinações que podem, em princípio e definitivamente explicar-se em termos de representações matemáticas. Encontramos aí um traço eminentemente fundamental da concepção científica moderna: o conhecimento científico se move no domínio da representação; contudo, o meio por excelência dessa representação é a matemática. O verdadeiro paradigma de todo objeto é o objeto matemático. O que não deixa de ser bastante paradoxal, porque, no final das contas, o objeto matemático é construído: não nos é dado à maneira dos objetos naturais. É muito difícil a questão de sabermos como exatamente ele é construído. Sobre essa questão, não possuímos ainda, no momento atual, uma clareza satisfatória. Em todo caso, é certo que não descobrimos o objeto matemático na percepção: ele é elaborado passo a passo, por atos específicos de abstração e de tematização. Por outro lado, porém, uma vez construído, impõe-se a nós como o objeto que existe nele e por ele mesmo. Foi isto que levou alguns grandes matemáticos a considerar que a realidade matemática existe em si, fora do espírito humano e a pensar que, ao construirmos um objeto matemático, nada mais fazemos, de fato, senão descrever uma realidade que existe fora de nós e independentemente de nós."