A natureza na perspectiva grega - Aristóteles

No pensamento grego, de um modo geral, podemos perceber uma comunhão entre a natureza (physis) e o homem. O grego percebe o "kosmos" como harmonia, equilíbrio, sábia organização; cabendo ao ser-humano manifestar sua "humanidade" a partir de suas vocações, ou virtudes, neste grande "quebra-cabeça" cosmológico. Segundo o Prof. Olinto (UFRJ), o pensamento estóico é fortemente marcado pela idéia de que devemos nos "reconciliar" com o mundo natural aceitando, conscientemente, uma existência "necessária". A liberdade, nesta perspectiva, consistiria em se submeter às leis da natureza. Embora Aristóteles não compartilhe de uma concepção imutável da "natureza" humana, o estagirita é um dos representantes de uma visão de "physis" como auto-suficiente e em perfeito equilíbro. No texto que segue, a pensadora francesa Anne Cauquelin nos transmite com clareza esta ideia:


"Ele é ecólogo, mas de modo algum ecologista, a natureza se vira muito bem sozinha. Mais do que isso, ela nos governa, e seria bastante pretensioso querer socorrê-la, um erro lógico, uma deturpação dos princípios, até um pecado do coração. 

Ele esta nos antípodas da ecologia moderna, que vê por toda a parte carência, degradação, decadência e catástrofes em série, dizendo: "É preciso sustentar o planeta Terra, acalenta-lo com cuidados atentos”, "cabe a nós, humanos zelar por ele, senão pereceremos com ele, por falta de subsistência”, e disfarçando mal uma angústia milenarista que não ousa dizer seu nome, multiplicando as latas de lixo, enterrando os detritos, sonhando com uma "grande saúde", com uma limpeza levada ao fanatismo. Somos responsáveis pela sobrevivência de Gaia? […] Essas questões que agitam a nossa época, e as quais se mistura uma certa política, não dizem nada a Aristóteles. Ele as julgaria sem fundamento, absolutamente desprovidas de sentido. 

Falta de confiança na força da vida, diria ele. Ataque de febre maligna, que envenena a fonte do sentimento, tão forte em Aristóteles, de uma finalidade natural, essa espécie de maravilhamento diante dos fenômenos, dos mais humildes aos mais estranhos nossa razão, que o biólogo descobre funcionando nos processos da vida.

Ele vê a natureza como um organismo que se auto-reproduz repara-se a si mesmo, jogando com a analogia para adaptar-se, tendendo sempre para a economia. No fundo, a natureza é gramática lógica. Mulher e mãe, avó, seu trabalho é a arrumação: ela guarda aqui, as coisas que combinam; ela guarda os homens na gaveta “animais”, com algumas especificações, assim como arruma seus potes de geléia e suas preciosidades em armários cuidadosamente organizados. O chifre com o chifre, os membros com os membros cada órgão com sua função. As asas dos pássaros são nadadeiras nos peixes, com as quais eles se deslocam no elemento aquoso. Não semelhantes mas análogos. Cumprindo a mesma função. O que o ar é para o pássaro, o mar é para o peixe.

[…] Em todos os casos, esses movimentos se compõem entre si, em um maquinismo complexo, que a natureza instalou e que ela governa, como exibidor de marionetes segura os fios invisíveis das suas criaturas dançantes, mas deixando-lhes a sua autonomia.

[…] Se o elefante tem uma tromba, não é à toa, pensa ele, isso deve servir para alguma coisa, para respirar, por exemplo. A natureza não teria gasto tanta pele, tanta carne e tanta imaginação só de brincadeira. Chafurdando nos pântanos, enterrado até o pescoço no elemento líquido, o bem-amado elefante levanta o nariz para aspirar grandes sorvos de ar. Por isso, tem um aparelho lógico. O léxico de suas partes está instalado em uma sintaxe, tudo se articula, ele é completo.”

 

Anne Cauquelin, "Aristóteles"