O homem é condenado a ser livre - Sartre

Influenciado, sobretudo, pela filosofia fenomenológica de Husserl, o pensador francês Jean-Paul Sartre destacou-se por suas formulações sobre o "existencialismo". Uma interpretação possível do pensamento de Sartre é reconhecê-lo como continuação de uma corrente que se inicia, de forma sistemática, no dualismo platônico, ao identificar duas dimensões distintas que compõe o "humano" (psykhé e sôma), onde o lógos/Àóyoç (potência da alma cuja sede é na cabeça e preside a vida intelectual) seria responsável pelas deliberações racionais e, portanto, livres dos afetos do corpo ao mundo sensível. Com Descartes, o conceito de livre-arbítrio ganha contornos modernos e o cogito cartesiano fundamenta a distinção entre a res cogitans e a res extensa, ou seja, há algo que duvida e, portanto, capaz de pensar e deliberar. A contribuição de Kant, que segregou as noções de desejo x vontade, é evidente: o corpo deseja, mas a "justa" decisão deve ser obra de uma razão "afiada" e fundadora de um Imperativo Categórico. Neste resumido "trajeto" que desenhamos, Sartre seria o ápice desta concepção, que desde a Grécia Antiga, nega a causalidade da existência humana e se consagra na famosa expressão: "a existência precede a essência".

“Só pelo fato de que tenho consciência dos motivos que solicitam minha ação, esses motivos já são objetos transcendentes para minha consciência, estão fora; em vão buscaria agarrar-me a eles, escapo disso por minha existência mesma. Estou condenado a existir para sempre além de minha essência, além dos móveis e dos motivos de meu ato: estou condenado a ser livre. Isso significa que não se poderia encontrar para a minha liberdade outros limites senão ela mesma, ou, se prefere, não somos livres de cessar de ser livres. (...) O sentido profundo do determinismo é o de estabelecer em nós uma continuidade sem falha da existência em si. (...) Mas em vez de ver transcendências postas e mantidas no seu ser por minha própria transcendência, supor-se-á que as encontro surgindo no mundo: elas vêm de Deus, da natureza, da ‘minha’ natureza, da sociedade. (...) Essas tentativas abortadas para sufocar a liberdade sob o peso do ser – elas desmoronam quando surge, de repente, a angústia diante da liberdade – mostram bastante que a liberdade coincide no fundo com o nada que está no coração do homem.”

Sartre, L'Êtr et le néant (O ser e o nada), Quarta parte, cap I, Gallimard, pp.515-516