Para que Filosofia?

Texto de João Cardoso de Castro

Discutir a importância da Filosofia na formação de administradores e contadores nos impõe um dos exercícios mais complexos da atividade filosófica, a saber: definir do que se trata esta disciplina. Inúmeras foram as vezes que me encontrei em situação embaraçosa diante da simples pergunta: o que é a Filosofia? Pois é! Nos corredores de qualquer curso de graduação de Filosofia sempre ouvimos brincadeiras como: “é coisa com a qual e sem a qual o mundo fica tal e qual...”. Nos “corredores da vida" a tal brincadeira toma uma forma mais radical, digamos assim, “não serve pra nada, pronto!”. Já tinha ouvido tanto isso que por vezes “balancei”, quase acreditando. De uns tempos pra cá, minha mente clareou de tal forma que hoje tenho certeza … é … não serve mesmo! Calma, deixe-me explicar melhor o que quero dizer. De fato ler isso em um texto de Filosofia deve soar no mínimo estranho.

Veja, em todos os tempos a Filosofia tem exercido atrativo mais ou menos intenso sobre os homens. Desde seu surgimento, que acredita-se ter acontecido na Grécia por volta do século VI a.C., muitas foram as suas ramificações, tendo algumas ganhado enorme prestígio na história da humanidade. Existem faculdades, cursos e institutos da Filosofia em todas as grandes universidades do mundo e não é exagero dizer que a humanidade jamais persistiria no interesse de uma disciplina que de nada servisse. É fato também, que já não dispõe do mesmo prestígio de sua era de ouro, na Grécia Antiga, mas o que causa imensa estranheza é que sua representatividade varia de lugar para lugar, ou contexto para contexto, dentro de uma mesma sociedade.

Se perguntássemos nos corredores de uma grande universidade francesa e num boteco sobre a importância da Filosofia, certamente não recolheríamos resultados semelhantes. Mas, por que? Por algum tempo acreditei que muitos dos indivíduos que desdenhavam da filosofia, o faziam sem nem mesmo saber que a utilizavam corriqueiramente. “Ora”, pensava eu, “ele usa a filosofia todos os dias de sua vida, mas não sabe”. Hoje tenho convicção de que isso não acontece. Poucos, muito poucos são aqueles que podem dizer que fazem uso da filosofia. Opa! Então a filosofia serve para alguma coisa!? Ou melhor, para algumas pessoas. Sim, serve sim. Mas para servir, ou seria, “vir (a) ser” (servir ao contrário!?), a Filosofia tem um jeito de ser. A filosofia não se dá em qualquer lugar e de qualquer forma e Platão ainda diria mais: não é para qualquer um! Pensar filosoficamente é pensar de um forma muito específica, ainda que sobre um tema qualquer.
 
O filósofo John Shand diz que não são raras as vezes que a filosofia é encarada como um “luxo não prático, desnecessário”, quase uma brincadeira que fazemos quando já não temos mais nada para realizar em nossas vidas, e alerta: “isto é um erro!”. E mais, longe de ser desnecessária, para algumas pessoas, é inevitável. Mas só cumpre sua função a partir do momento em que o indivíduo deixa de aceitar as coisas como lhe são oferecidas e passa a pensar autonomamente. Vale ressaltar que este “movimento” intelectual não é nada simples. Como nos alertou o gênio alemão Kant, “preguiça e covardia são as causas que explicam por que uma grande parte dos seres humanos, mesmo muito após a natureza tê-los declarado livres da orientação alheia, ainda permanecem, com gosto, e por toda a vida, na condição de menoridade. É tão confortável ser menor!”.
 
Acredito que aí reside a importância e o desafio da Filosofia não só para os estudantes como para os professores desta disciplina. A filosofia se pretende uma eficaz ferramenta para este estudante pensar criticamente a realidade a sua volta e pode ser. Cada qual com sua responsabilidade específica, cabe ao professor demonstrar a capacidade desta disciplina no “empoderamento” do indivíduo, lhe apresentando a porta, mas ciente de que somente ele, estudante, pode atravessá-la.
 
A Filosofia perde cada vez mais espaço nos dias de hoje exatamente por conta de seu “jeito de ser”. Sua forma de “servir” (vir a ser!) não atende o homem moderno. Daí a minha tese inicial de que “não serve!”, mas devo atualizá-la: na verdade não serve para todos. Para fazer Filosofia é preciso, antes de tudo, querer pensar. Falham professores e estudantes quando não percebem a atualidade da filosofia. Ora, o sujeito moderno tem pressa e pensar demora. Ideal seria se pudéssemos comprar pensamentos em um fast food, e de preferência no drive-thru, afinal de contas, tudo tem que ser rápido pois como o poeta já havia dito “o tempo não pára”. Certo, certo. Tempo é dinheiro, não é!? Só não esqueçamos que esta atitude atende a interesses bem definidos.
 
 
“Uma revolução poderá talvez realizar a queda do despotismo pessoal ou da opressão ávida de lucros ou de domínios, porém nunca produzirá a verdadeira reforma do modo de pensar. Apenas novos preconceitos, assim como os velhos, servirão como cintas para conduzir a grande massa destituída de pensamento”
Kant
 
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* texto elaborado para a coluna "Observatório Empresarial", do Jornal "Diário de Teresópolis".