A questão do sentido do ser - Heidegger

"Ao longo de sua história, a filosofia ocidental preocupou-se sempre com o Ser, de modo que seria razoável esperar que, de há muito, estivéssemos familiarizados com o significado desse termo. Perguntas concernentes aos predicados mais gerais do ser (categorias) ou à distinção entre o ser e o devir, a realidade e a aparência, sempre constituíram o foco de atenção e meditação da filosofia.
 
Como se explicaria, então, que Platão, um dos maiores ícones da filosofia, tenha delegado à voz de um sofista a constatação perplexa de que não estamos familiarizados com aquilo que pensamos quando empregamos a palavra "ser"? Embaraçoso é constatar que até agora acreditávamos sabê-lo, mas, em verdade, carecemos de uma explicação que nos livre da dificuldade de não compreender o que propriamente pensamos quando dizemos "ser".
 
Assim, já estaria em Platão a suspeita de que a filosofia desconhece o que é pensado sob o termo "ser" - ainda que seja o mais empregado ao longo de sua história. Escândalo e pasmo, portanto, uma pedra de tropeço. Ser e tempo é uma das tentativas mais radicais da filosofia contemporânea para retomar essa pergunta em toda sua envergadura. Saberíamos nós o que Platão confessava desconhecer? A resposta de Heidegger é: não, de modo algum.

Ora, qualquer resposta pertinente só pode ser dada e, sobretudo, compreendida quando a pergunta a que ela responde é adequadamente formulada. Daí a suspeita de que nem Platão, nem a história da filosofia inteira ofereceram uma resposta pertinente à pergunta pelo sentido do Ser. E isso ocorre porque a pergunta não foi propriamente formulada, o questionamento não foi suficientemente pensado."
 
Oswaldo Giacóia, "Heidegger Urgente" (p.52)