A democracia grega

"Outra idéia também inspira os gregos a não mais recorrer aos deuses para entender o mundo: a sensação de que eles abandonaram os homens. Isso aparece já no final do século VIII a.C., na obra do poeta Hesíodo. Em Teogonia, ele descreve a criação do mundo e dos deuses a partir de Caos, Gaia (Terra) e Eros (Amor). Sucedem-se outras divindades, que com caprichos quase humanos amam, mentem, traem e lutam umas com as outras. Finalmente, com a vitória de Zeus, os deuses ins-talam-se no Olimpo. Nesse relato, Hesíodo ordena vários mitos contraditórios, explicando também os fenômenos da natureza e a história. Mais que isso, mostra que, após a vitória de Zeus, o homem está livre das cruéis maquinações dos deuses que o antecedem. Zeus, que faz reinar a justiça, castiga ou premia os mortais de acordo com os atos pelos quais são responsáveis. 
 
Em Os Trabalhos e os Dias, escrito para pedir a punição de um irmão desonesto, Hesíodo defende a necessidade do trabalho árduo como condição humana. O ser humano, segundo narra, teria passado por cinco idades: a de ouro, a de prata, a de bronze, a dos semideuses e a de ferro. Na primeira, convive com os deuses, não conhece nem o trabalho nem a morte. Seguem-se fases intermediárias que terminam com a idade de ferro, a fase atual, em que o homem, após ter recebido o fogo roubado por Prometeu, foi separado dos deuses e condenado a trabalhar, a procriar, por conta própria. A procriação é possibilitada por Pandora, mulher que os deuses enviam aos homens como vingança pela posse do fogo. Dela — ou da caixa que carrega — nascem todos os dons e todos os males da Terra. O homem está abandonado, mas já é livre para fazer valer a sua justiça. E para pensar. Na Grécia, entre os séculos VIII e V a.C., empreendese a busca pela construção de uma sociedade justa e de um pensamento racional, livre de preconceitos. Dessa procura originam-se, de um lado, a democracia e, de outro, a filosofia. 
 
A democracia grega, principalmente a de Atenas, é o resultado de lutas sucessivas. Primeiro, entre os ricos comerciantes sem acesso ao poder e a aristocracia hereditária, que o monopoliza; em seguida, entre essas duas camadas, que já compartilham o poder, e as classes mais pobres. A democracia representa um frágil e tenso equilíbrio entre as várias camadas sociais. E, apesar das divergências que as separam, adquirem todas o direito de participação política.

Diante da democracia, a filosofia mantém uma postura nem sempre favorável, mesmo porque na Grécia o pensamento alcança um grau maior de elaboração quando esse regime já havia entrado em decadência. A despeito disso, uma e outra têm raízes comuns: as condições históricas do mundo grego. 
 
A sociedade grega, ao contrário de outras civilizações de seu tempo, desconhece castas sacerdotais que tenham o monopólio dos livros sagrados e da verdade revelada. Tampouco a escrita é segredo de governantes e escribas. Ao contrário, é de domínio comum, e isso possibilita a ampla difusão e a discussão de idéias. 
 
O livre desenvolvimento do pensamento também é facilitado pela ausência, quer na religião olímpica quer nas crenças mais místicas, de uma teologia elaborada que forneça explicações coerentes do mundo. Os deuses gregos, ao contrário, têm características humanas e pouco servem de inspiração para um pensamento mais elaborado. 
 
De uma perspectiva política, uma “religião” tão frágil em fundamentos é ineficiente como instrumento de poder. Dessa maneira, já no período homérico, a idéia de rei divino desaparece, cedendo espaço para que a política e o governo se tornem cada vez mais um assunto e uma atividade essencialmente humanos. (O homem seria definido mais tarde, por Aristóteles, como zoón politikón, isto é, animal político.) 
 
A reduzida dimensão das unidades políticas do mundo grego contribuiu para o surgimento dessa concepção dessacralizada de política. A Grécia Antiga não é um império cujo domínio se estende a vastas regiões e a diversas comunidades. Ao contrário, cada comunidade é uma cidade-Estado autônoma, com dimensões de um pequeno município.
 
É bem provável, porém, que cada pólis tivesse sua organização própria, embora oficialmente todas seguissem o modelo de Atenas. É lá que o zoón politikón de Aristóteles aparece em sua plenitude, e disso o ateniense se orgulha, como característica que o distingue de outros povos. Ele, ao contrário dos bárbaros, que despreza, não está submetido ao mando de um rei. Tem consciência de viver em sociedade; sabe que é ateniense porque é cidadão, e que é cidadão porque participa da vida pública da cidade. Os destinos da pólis são de responsabilidade de todos os cidadãos, acima dos quais não há nada a não ser as leis que eles mesmos elaboraram. Até mesmo os espartanos, em vários aspectos tão diferentes dos atenienses, imitaram-nos quando enviaram embaixadores aos persas, sob o argumento de que não tinham outro senhor a não ser a lei. 
 
A idéia de que a soberania é da lei — não dos deuses ou de algum rei — constitui o fundamento da democracia grega. Até chegar a ela, os atenienses passaram por vários sistemas de governo. Diante de sérios conflitos entre grupos sociais que disputavam o poder, chegaram a escolher tiranos (que então significavam “árbitros”) para servir de mediadores dos diversos interesses, encarnando a autoridade da lei. Por fim, na democracia, a lei tornouse impessoal, obra coletiva, resultado da decisão tomada por todos, reunidos em assembléia pública. Mas bem entendido: todos, menos mulheres, crianças, estrangeiros e escravos — aos quais era negado o direito à cidadania. 
 
Essa organização política, até então inédita, possibilitou o desenvolvimento, em um modo sistemático de pensamento, de concepções difusas, presentes na cultura helênica desde os tempos de Homero e de Hesíodo. O governo da cidade como esforço coletivo e exclusivo dos cidadãos é a tradução política da idéia de que os deuses abandonaram os homens. E a fatalidade, superior aos deuses, tem seu equivalente na visão democrática de que a lei está acima dos indivíduos. Nesse ambiente iria desenvolver-se a filosofia, um modo de pensar que busca uma lei universal, acima de todas as coisas, e que as explique sem recorrer a forças místicas e divinas."
 
 
Bernadette Siqueira Abrão, "História da Filosofia" (p. 20-23)