Não se pode falar de ação sem contemplação (theoria) - Ortega y Gasset

"Parece-me que presentemente podemos representar-nos, ainda que seja em vago esquematismo, qual tem sido a trajetória humana, considerada sob este ângulo. Façamo-lo num texto condensado, que nos sirva a um tempo como resumo e como recordação de tudo anteriormente dito.
 
Acha-se o homem, não menos do que o animal, consignado ao mundo, às coisas em torno, à circunstância. Em princípio, sua existência mal difere da existência zoológica: êle, também, vive governado pelo contorno, inserido entre as coisas do mundo como uma delas. Não obstante, mal os seres em torno lhe deixam um alento, o homem, fazendo um esforço gigantesco, consegue um instante de concentração, mete-se dentro de si, isto é, mantém, a duras penas, sua atenção fixa nas ideias que brotam dentro dele, ideias que as coisas suscitam, e que se referem ao comportamento destas, ao que logo o filósofo chamará "o ser das coisas". Trata-se, de pronto, de uma ideia muito tosca, sobre o mundo, mas que permita esboçar um primeiro plano de defesa, uma conduta preconcebida. Mas, nem essas coisas em torno lhe permitem vagar por muito tempo nessa concentração; tampouco, embora elas o consentissem, esse homem primigênio seria capaz de prolongar mais de uns segundos ou minutos essa torção aten-cional, essa fixação nos impalpáveis fantasmas que são as ideias. Essa atenção para dentro, que é o ensimesmamento, constitui o fato mais antinatural, mais ultrabiológico. O homem tardou milhares de anos para educar um pouco, - nada mais que um pouco, - a sua capacidade de concentração. O que lhe é natural é dispersar-se, distrair-se para fora, como o macaco na selva e na jaula do Jardim Zoológico.
 
O padre Chevesta, explorador e missionário, que foi o primeiro etnógrafo especializado no estudo dos pigmeus, provavelmente a variedade de homens mais antiga que se conhece, que êle foi procurar lá dentro das selvas tropicais mais recônditas, - o padre Chevesta, que desconhece por completo a doutrina agora exposta por mim e se limita a descrever o que vê, diz em sua última obra, de 1932, sobre os anões do Congo (Bambuti, die Zwerge des Congo):
 
"Falta-lhes por completo o poder de concentrar-se. Estão sempre absorvidos pelas impressões exteriores, cuja contínua mutação lhes impede recolher-se a si mesmos, o que constitui condição indispensável a todo aprendizado. Sentá-los no banco de uma escola seria para estes homenzinhos um tormento insuportável. De modo que o trabalho do missionário e do mestre se torna sumamente difícil".
 
Mas, embora instantâneo e tosco, esse primitivo ensimesmamento vai separar radicalmente a vida humana da vida animal. Porque agora o homem, esse homem primigênio vai submergir novamente nas coisas do mundo, resistindo a elas, sem entregar-se de todo a elas. Leva um plano contra elas, um projeto de trato com elas, de manipulação de suas formas, que produz uma transformação mínima em seu redor, suficiente para que o oprimam um pouco menos e, em consequência, lhe permitam mais frequentes e folgados ensimesmamentos. . . e assim sucessivamente.

Heidegger: a perigosa latinização dos conceitos gregos

"A dominação dos romanos e sua transformação do helenismo no modo latino não se limita, entretanto, de nenhuma forma, a instituições individuais do mundo grego ou a atitudes individuais e "modos de expressão" da humanidade grega. Nem a latinização do mundo grego pelos romanos se estende, simplesmente, à soma de cada coisa apropriada por eles. O decisivo é que a latinização ocorre como uma transformação da essência da verdade e do ser no interior do domínio da história greco-romana. Essa transformação tem a característica de que ela permanece escondida e, entretanto, determina previamente tudo. Esta transformação da essência da verdade e do ser é o genuíno evento na história. O imperial como modo de ser da humanidade histórica não é, no entanto, a base para a transformação essencial da aletheia para a veritas como rectitudo, e sim, sua consequência, e, como tal, é a possível causa e ocasião para o desenvolvimento do sentido correto. Falar da “transformação da essência da verdade” é, naturalmente, apenas, um expediente de emergência; pois é a ainda falar da verdade num modo objetivante, para além e contra o modo como ela própria se torna presença e “é” história. A transformação da essência da verdade suporta, ao mesmo tempo, aquele domínio no qual os nexos, historiograficamente [historisch] observáveis da história [Geschichte] ocidental, estão fundados. Por isso, também, o estado histórico de mundo, que chamamos de idade moderna, seguindo a cronologia historiográfica, está fundado no evento da latinização da Grécia. O "renascimento" da antiguidade, concomitante com a irrupção do período moderno, é prova inequívoca disso. Uma consequência mais distante, mas de forma alguma indiferente, da latinização da cultura grega, e do renascimento latino da antiguidade é o fato de que, ainda hoje, vemos a cultura grega com olhos romanos, e isso não somente no interior da pesquisa histórica do mundo grego, mas sim – o que é mais decisivo – no diálogos histórico metafísico do mundo moderno com o dos antigos.

A morte não é nada - Henry Scott-Holland

"A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do Caminho. Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês, eu continuarei sendo. Me dêem o nome que vocês sempre me deram, falem comigo como vocês sempre fizeram. Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo do Criador. Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos. Rezem, sorriam, pensem em mim. Rezem por mim. Que meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de nenhum tipo. Sem nenhum traço de sombra ou tristeza. A vida significa tudo o que ela sempre significou, o fio não foi cortado. Porque eu estaria fora de seus pensamentos, agora que estou apenas fora de suas vistas? Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do Caminho... Você que aí ficou, siga em frente, a vida continua, linda e bela como sempre foi."
 
Henry Scott-Holland, sermão intitulado "Death the King of Terrors"

O animal não tem consciência da morte - Schopenhauer

"A morte é o verdadeiro gênio inspirador ou o Muságeta da filosofia, razão pela qual Sócrates também a definiu como thanatou memléte (preparação para a morte). De fato, sem a morte, seria até difícil filosofar. Por isso, é perfeitamente legítimo que uma consideração especial sobre a morte seja colocada aqui, no início de nosso último livro, que é o mais sério e importante de todos. O animal vive sem um verdadeiro conhecimento da morte: por isso, o indivíduo animal desfruta diretamente de toda a imortalidade da espécie, na medida em que tem consciência de si mesmo apenas como ser sem fim. No homem, o surgimento da razão trouxe necessariamente consigo a assustadora certeza da morte. No entanto, como na natureza para todo o mal há sempre um remédio ou, pelo menos, um substituto, a mesma reflexão que provocou o conhecimento da morte também nos conduz a formular opiniões metafísicas que nos consolam a respeito, e das quais o animal não necessita nem é capaz de ter.
 
Esse é o objetivo principal a que se orientam todas as religiões e todos os sistemas filosóficos, que em primeiro lugar, constituem, portanto, o antídoto da certeza da morte, produzido pela razão reflexiva a partir de recursos próprios. No entanto, o grau em que alcançam esse objetivo é muito variado, e não há dúvida de que certa religião ou certa filosofia, muito mais do que qualquer outra, tornará o homem apto a encarar a morte com um olhar sereno. Nesse sentido, o bramanismo e o budismo, que ensinam o homem a ver-se como o próprio ser primordial, o Brama, que é essencialmente alheio a todo o nascimento e a todo perecimento, são muito mais eficazes do que aquelas religiões para as quais o homem foi criado a partir do nada e que fazem com que sua existência, recebida de outrem, realmente comece com o nascimento. Por conseguinte, encontramos na Índia uma confiança na morte e um desprezo por ela que são inconcebíveis na Europa. De fato, quanto a essa importante questão, é grave querer impor ao homem e nele inculcar precocemente conceitos fracos e insustentáveis, tornando-o para sempre incapaz de assimilar os conceitos mais corretos e mais sólidos.

A ciência - Heidegger

Excelente colocação sobre a profunda distinção do que se denomina "ciência" hoje em dia, daquilo que se poderia conjecturar como "ciência" na antiguidade grega e na Idade Média.
 
"Na atualidade, quando empregamos a palavra “ciência”, esta significa algo tão essencialmente diferente da doutrina e da scientia da Idade Média como da episteme grega. A ciência grega nunca foi exata, porque segundo a sua essência era impossível que ela o fosse e tampouco necessitava sê-lo. Por isso, carece completamente de sentido dizer que a ciência moderna é mais exata que a da Antigüidade. Do mesmo modo, tampouco se pode dizer que a teoria de Galileu sobre a queda livre dos corpos seja verdadeira e que a de Aristóteles, que diz que os corpos leves tendem a elevar-se, seja falsa, porque a concepção grega da essência dos corpos, do lugar, bem como da relação entre ambos, se baseia em uma interpretação diferente do ente e, em conseqüência, determina outro modo distinto de ver e questionar os fenômenos naturais. Ninguém pretenderia afirmar que a literatura de Shakespeare é um progresso com respeito à de Ésquilo, resulta, porém, que ainda é maior a impossibilidade de afirmar que a concepção moderna do ente é mais correta que a grega. Por isso, se quisermos chegar a captar a essência da ciência moderna devemos começar por nos livrarmos do costume de distinguir a ciência moderna face à antiga unicamente por uma questão de grau desde a perspectiva do progresso.

A crise da medicina - Peter Sloterdijk

Accustom yourself to believe that death is nothing to us, for good and evil imply awareness, and death is the privation of all awareness; therefore a right understanding that death is nothing to us makes the mortality of life enjoyable, not by adding to life an unlimited time, but by taking away the yearning after immortality. For life has no terror; for those who thoroughly apprehend that there are no terrors for them in ceasing to live. Foolish, therefore, is the person who says that he fears death, not because it will pain when it comes, but because it pains in the prospect. Whatever causes no annoyance when it is present, causes only a groundless pain in the expectation. Death, therefore, the most awful of evils, is nothing to us, seeing that, when we are, death is not come, and, when death is come, we are not.
 
Epicurus, "Letter to Menoeceus" 
 
 
"Em cada civilização, há grupos de pessoas que por conta de suas tarefas profissionais são levados a desenvolver diferentes realismos em contato com corpos moribundos ou mortos: o soldado, o carrasco, o sacerdote. Mas é na profissão médica que se constroi o realismo mais aprofundado da morte. — Esta consciência da morte tem um conhecimento técnico mais íntimo que toda outra da fragilidade do corpo, e dá luz ao movimento, orientado para a morte, de nosso organismo — seja ele chamado saúde, doença ou envelhecimento. Só o açougueiro possui, do aspecto material de nossa morte, um saber comparável, igualmente ancorado em rotinas pelo ofício. O materialismo medical chega até a intimidar o materialismo filosófico. Por esta razão, o cadáver seria o professor propriamente qualificado de um materialismo integral. [...]

A mão invisível - Adam Smith

"No caso de quase todas as outras raças de animais, cada indivíduo, ao atingir a maturidade, é totalmente independente e, em seu estado natural, não tem necessidade da ajuda de nenhuma outra criatura vivente. O homem, entretanto, tem necessidade quase constante da ajuda dos semelhantes, e é inútil esperar esta ajuda simplesmente da benevolência alheia. Ele terá maior probabilidade de obter o que quer, se conseguir interessar a seu favor a auto-estima dos outros, mostrando-lhes que é vantajoso para eles fazer-lhe ou dar-lhe aquilo de que ele precisa. E isto o que faz toda pessoa que propõe um negócio a outra. Dê-me aquilo que eu quero, e você terá isto aqui, que você quer - esse é o significado de qualquer oferta desse tipo; e é dessa forma que obtemos uns dos outros a grande maioria dos serviços de que necessitamos. 
 
Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse. Dirigimo-nos não à sua humanidade, mas à sua auto-estima, e nunca lhes falamos das nossas próprias necessidades, mas das vantagens que advirão para eles. Ninguém, a não ser o mendigo, sujeita-se a depender sobretudo da benevolência dos semelhantes. Mesmo o mendigo não depende inteiramente dessa benevolência. Com efeito, a caridade de pessoas com boa disposição lhe fornece tudo o de que carece para a subsistência. Mas embora esse princípio lhe assegure, em última análise, tudo o que é necessário para a sua subsistência, ele não pode garantir-lhe isso sempre, em determinados momentos em que precisar. A maior parte dos desejos ocasionais do mendigo são atendidos da mesma forma que os de outras pessoas, através de negociação, de permuta ou de compra. Com o dinheiro que alguém lhe dá, ele compra alimento. A roupa velha que um outro lhe dá, ele a troca por outras roupas velhas que lhe servem melhor, por moradia, alimento ou dinheiro, com o qual pode comprar alimento, roupas ou moradia, conforme tiver necessidade.

A morte de Sócrates - Fédon

Nas palavras de Carlos Alberto Nunes, em sua excelente tradução bilíngue do diálogo de Fédon: "Nessas poucas palavras se resume toda a doutrinação filosófica de Sócrates-Platão, dirigida primeiramente aos atenienses, porém logo depois projetada no âmbito da incipiente cultura da Europa: mostrar aos homens o que importa fazer, na vida como na morte, para que sejam homens." SER-humano! Platão, no seu livro Fédon, assim narrou a morte de seu mestre:
 
"Depois de assim falar, levou a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar um nada, bebeu até à última gota. Até esse momento, quase todos tínhamos conseguido reter as lágrimas; porém quando o vimos beber, e que havia bebido tudo, ninguém mais aguentou. Eu também não me contive: chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio; sim, não era por desgraça que eu chorava, mas a minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado. Critão levantou-se antes de mim, por não poder reter as lágrimas. Apolodoro, que desde o começo não havia parado de chorar, pôs se a urrar, comovendo seu pranto e lamentações até o íntimo todos os presentes, com exceção do próprio Sócrates.
 
- Que é isso, gente incompreensível? Perguntou. Mandei sair as mulheres, para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos! Sede homens!
 
Ouvindo-o falar dessa maneira, sentimo-nos envergonhados e paramos de chorar. E ele, sem deixar de andar, ao sentir as pernas pesadas, deitou-se de costas, como recomendara o homem do veneno. Este, a intervalos, apalpava-lhe os pés e as pernas. Depois, apertando com mais força os pés, perguntou se sentia alguma coisa. Respondeu que não. De seguida, sem deixar de comprimir-lhe a perna, do artelho para cima, mostrou-nos que começava a ficar frio e a enrijecer. Apalpando-o mais uma vez, declarou-nos que no momento em que aquilo chegasse ao coração, ele partiria. Já se lhe tinha esfriado quase todo o baixo-ventre, quando, descobrindo o rosto – pois o havia tapado antes – disse, e foram suas últimas palavras:
 
- Critão (exclamou ele), devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!
"Assim farei!", respondeu Critão. Vê se queres dizer mais alguma coisa. A essa pergunta, já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção. O homem o descobriu; tinha o olhar parado. Percebendo isso, Critão fechou-lhe os olhos e a boca.
 
Tal foi o fim do nosso amigo, Equécrates, do homem, podemos afirmá-lo, que entre todos os que nos foi dado conhecer, era o melhor e também o mais sábio e mais justo."
 
Platão, "Fédon" (117c-118a)
 
 

O devaneio destrutivo da igualdade - Kurt Vonnegut

Harrison Bergeron
por Kurt Vonnegut (1961)
 
"A vida não é justa. É tentador acreditar que o governo pode corrigir aquilo que a natureza criou. Mas é igualmente importante reconhecer o quanto beneficiamos precisamente da injustiça que lastimamos. Não é nem um pouco injusto que […] Muhammad Ali tenha nascido com o talento que transformou em um grande boxeador […] É certamente injusto que Muhammad Ali seja capaz de ganhar milhões de dólares um uma só noite. Mas não teria sido ainda mais injusto para as pessoas que gostavam de vê-lo lutar se, em nome de um ideal abstrato de igualdade, Muhammad Ali não pudesse ganhar em uma luta […] mais do que o trabalhador não qualificado da base da pirâmide recebe por uma jornada no cais do porto?"
 
Milton Friedman (Liberdade para Escolher)
 
"O ano era 2081, e todos finalmente eram iguais. Eles não eram apenas iguais diante de Deus e da lei, eles eram iguais em todos os sentidos. Ninguém era mais esperto do que ninguém. Ninguém era mais bonito do que ninguém. Ninguém era mais forte ou mais rápido do que qualquer outra pessoa. Toda essa igualdade devia-se aos Decretos 211º, 212º e 213º da Constituição e também pela incansável vigilância dos agentes do Nivelador Geral (NG). Entretanto, algumas coisas não iam muito bem. Era Abril e muitos estavam ansiosos por ainda não ser primavera. E foi nesse mês que os homens do NG levaram Harrison, de 14 anos, filho de George e Hazel Bergeron. Foi trágico, mas George e Hazel não podia pensar sobre o que estava acontecendo, para eles era difícil fazer isso. Hazel tinha uma inteligência perfeitamente média, o que significava que ela não poderia pensar em nada muito complicado, exceto em coisas muito pontuais. George possuía uma inteligência acima do normal, por isso tinha de usar um pequeno rádio em seu ouvido. Ele foi obrigado por lei a usá-lo todo o tempo. Ligado a um transmissor do governo, emitia um sinal que produzia um ruído a cada vinte segundos ou menos. Sua finalidade era manter as pessoas como George sem a vantagem injusta de terem cérebros mais capazes que os dos demais. George e Hazel estavam assistindo televisão. Havia lágrimas nas bochechas de Hazel, mas ela não tinha claro o que se passava. Na tela da televisão bailarinas dançavam. A campainha soou na cabeça de George. Seus pensamentos fugiram em pânico, como bandidos de um alarme.

A racionalidade científica é totalitária - Boaventura de Sousa Santos

"O modelo de racionalidade que preside à ciência moderna constituiu-se a partir da revolução científica do século XVI e foi desenvolvido nos séculos seguintes basicamente no domínio das ciências naturais. Ainda que com alguns prenúncios no século XVIII, é só no século XIX que este modelo de racionalidade se estende às ciências sociais emergentes. A partir de então pode falar-se de um modelo global de racionalidade científica que admite variedade interna mas que se distingue e defende, por via de fronteiras ostensivas e ostensivamente policiadas, de duas formas de conhecimento não-científico (e, portanto, irracional) potencialmente perturbadoras e intrusas: o senso comum e as chamadas humanidades ou estudos humanísticos (em que se incluíram, entre outros, os estudos históricos, filológicos, jurídicos, literários, filosóficos e teológicos). Sendo um modelo global, a nova racionalidade científica é também um modelo totalitário, na medida em que nega o caráter racional a todas as formas de conhecimento que se não pautarem pelos seus princípios epistemológicos e pelas suas regras metodológicas. 
 
É esta a sua característica fundamental e a que melhor simboliza a ruptura do novo paradigma científico com os que o precedem. Está consubstanciada, com crescente definição, na teoria heliocêntrica do movimento dos planetas de Copérnico, nas leis de Kepler sobre as órbitas dos planetas, nas leis de Galileu sobre a queda dos corpos, na grande síntese da ordem cósmica de Newton e finalmente na consciência filosófica que lhe conferem Bacon e sobretudo Descartes. Esta preocupação em testemunhar uma ruptura fundante que possibilita uma e só uma forma de conhecimento verdadeiro está bem patente na atitude mental dos protagonistas, no seu espanto perante as próprias descobertas e a extrema e ao mesmo tempo serena arrogância com que se medem com os seus contemporâneos. Para citar apenas dois exemplos, Kepler escreve no seu livro sobre a Harmonia do Mundo publicado em 1619, a propósito das harmonias naturais que descobrira nos movimentos celestiais: "Perdoai-me mas estou feliz; se vos zangardes eu perseverarei; ( . . . ) O meu livro pode esperar muitos séculos pelo seu leitor. Mas mesmo Deus teve de esperar seis mil anos por aqueles que pudessem contemplar o seu trabalho".

O significado espiritual da natureza - Seyyed Nasr

"Hoje todo mundo fala do perigo da guerra, da superpopulação ou da poluição do ar e da água. Mas geralmente essas mesmas pessoas que se apercebem destes problemas óbvios falam da necessidade de um posterior "desenvolvimento", ou da guerra contra a "miséria humana" que nasce das condições impostas pela própria existência terrestre. Em outras palavras, desejam remover os problemas causados pela destruição do equilíbrio entre o homem e a natureza através de uma maior conquista e dominação desta última. Poucos gostariam de admitir que os problemas técnicos e sociais que a humanidade enfrenta nos dias de hoje não vêm do tão falado "subdesenvolvimento", mas sim do "superdesenvolvimento". Poucos desejam olhar de frente a realidade e aceitar o fato de que não há possibilidade de paz na sociedade humana enquanto a atitude para com a natureza e todo o ambiente natural basear-se na agressão e na guerra. Além do mais, talvez nem todos percebam que, a fim de se conseguir esta paz com a natureza, tem de haver paz com a ordem espiritual. Para se estar em paz com a Terra tem-se de estar em paz com o Céu.
 
Não há uma maneira de o homem defender sua qualidade de humano sem ser arrastado por suas próprias invenções e maquinações a uma condição infra-humana, a não ser permanecendo fiel à imagem do homem como um reflexo de algo que transcende o meramente humano. A paz na sociedade do homem e a preservação dos valores humanos são impossíveis sem paz com as ordens natural e espiritual e respeito pelas realidades supra-humanas imutáveis, que são a origem de tudo que se chama "valores humanos"..

A história das verdades - Foucault

"Ao considerar a questão da história e da filosofia da ciência do ponto de vista de Foucault, é preciso, primeiramente, levar em consideração que seu interesse não diz respeito à ciência propriamente, mas ao saber; não à sua racionalidade imanente, mas às condições externas de possibilidade de sua existência. 
 
É importante notar que, quando nos referimos a saber, estamos compreendendo que se trata de uma categoria metodológica, um recurso instrumental, que significa o nível do discurso e das formulações teóricas, próprios do saber científico ou com pretensão à cientificidade. Mesmo quando não legitimado como ciência, o saber possui uma positividade e obedece a regras de apareci- mento, organização e transformação que podemos descrever.
 
As pesquisas de Foucault se inserem em uma linha da história da verdade determinada pelo espaço teórico, político e institucional dos campos onde se situam os saberes, sem se restringir à ciência.

O que é o senso-comum? - Rubem Alves

"Esta expressão não foi inventada pelas pessoas de senso comum. Creio que elas nunca se preocuparam em se definir. Um negro, em sua pátria de origem, não se definiria como pessoa “de cor”. Evidentemente. Esta expressão foi criada para os negros pelos brancos. Da mesma forma a expressão “senso comum” foi criada por pessoas que se julgam acima do senso comum, como uma forma de se diferenciarem das pessoas que, segundo seu critério, são intelectualmente inferiores. Quando um cientista se refere ao senso comum, ele está, obviamente, pensando nas pessoas que não passaram por um treinamento científico. Vamos pensar sobre uma destas pessoas. Ela é uma dona-de-casa. Pega o dinheiro e vai à feira. Não se formou em coisa alguma. Quando tem de preencher formulários, diante da informação “profissão” ela coloca “prendas domésticas” ou “do lar”. Uma pessoa comum como milhares de outras. Vamos pensar em como ela funciona, lá na feira, de barraca em barraca. Seu senso comum trabalha com problemas econômicos: como adequar os recursos de que dispõe, em dinheiro, às necessidades de sua família, em comida. E para isto ela tem de processar uma série de informações. Os alimentos oferecidos são classificados em indispensáveis, desejáveis e supérfluos. Os preços são comparados. A estação dos produtos é verificada: produtos fora de estação são mais caros. Seu senso econômico, por sua vez, está acoplado a outras ciências. Ciências humanas, por exemplo. Ela sabe que alimentos não são apenas alimentos. Sem nunca haver lido Veblen ou Lévi-Strauss, ela sabe do valor simbólico dos alimentos. Uma refeição é uma dádiva da dona-de-casa, um presente. Com a refeição ela diz algo. Oferecer chouriço para um marido de religião adventista, ou feijoada para uma sogra que tem úlceras, é romper claramente com uma política de coexistência pacífica. A escolha de alimentos, assim, não é regulada apenas por fatores econômicos, mas por fatores simbólicos, sociais e políticos. Além disto, a economia e a política devem fazer lugar para o estético: o gostoso, o cheiroso, o bonito. E para o dietético.

O fim da Filosofia - Heidegger

"Em que medida entrou a Filosofia, na época presente, em seu estágio final? Filosofia é Metafísica. Esta pensa o ente em sua totalidade — o mundo, o homem, Deus — sob o ponto de vista do ser, sob o ponto de vista da recíproca imbricação do ente e ser. A Metafísica pensa o ente enquanto ente ao modo da representação fundadora. Pois o ser do ente mostrou-se, desde o começo da Filosofia, e neste próprio começo, como o fundamento (arché, aítion, princípio). Fundamento é aquilo de onde o ente como tal, em seu tornar-se, passar e permanecer, é aquilo que é e como é, enquanto cognoscível, manipulável e transformável. O ser como fundamento leva o ente a seu presentar-se adequado. O fundamento manifesta-se como sendo presença. Seu presente consiste em produzir para a presença cada ente que se presenta a seu modo particular. O fundamento, dependendo do tipo de presença, possui o caráter do fundar como causação ôntica do real, como possibilitação transcendental da objetividade dos objetos, como mediação dialética do movimento do espírito absoluto, do processo histórico de produção, como vontade de poder que põe valores. 
 
O elemento distintivo do pensamento metafísico, elemento que erige o fundamento para o ente, reside no fato de, partindo do que se presenta, representar a este em sua presença e assim o apresentar como fundado desde o seu fundamento.
 
Que dizemos nós quando falamos do fim da Filosofia? Temos a tendência de compreender o fim de algo em sentido negativo como a pura cessação, como a cessação de um processo, quando não como ruína e impotência. Pelo contrário, quando falamos do fim da Filosofia queremos significar o acabamento da Metafísica. Acabamento não quer dizer, no entanto, plenitude no sentido que a Filosofia deveria ter atingido, com seu fim, a suprema perfeição. Falta-nos não apenas qualquer medida que permitisse estimar a perfeição de uma época da Metafísica em comparação a outra. Não há mesmo nada que possa justificar tal maneira de proceder. O pensamento de Platão não é mais perfeito que o de Parménides. A Filosofia hegeliana não é mais perfeita que a de Kant. Cada época da Filosofia possui sua própria necessidade. Que uma Filosofia seja como é, deve ser simplesmente reconhecido. Não nos compete preferir uma a outra, como é possível quando se trata das diversas visões do mundo.

Da ciência à técnica: a morte dos grandes ideais - Luc Ferry

“Nessa nova perspectiva, a da concorrência generalizada — que hoje chamamos de “globalização” —, a noção de progresso muda totalmente de significado: em vez de se inspirar em ideais transcendentes, o progresso, ou mais exatamente o movimento das sociedades, vai pouco a pouco se restringir a ser apenas o resultado mecânico da livre concorrência entre seus diferentes componentes.
 
Nas empresas, mas também nos laboratórios científicos e nos centros de pesquisa, a necessidade de se comparar continuamente aos outros — o que hoje tem um nome bem feio: o benchmarketing —, de aumentar a produtividade, de desenvolver os conhecimentos e, sobretudo, suas aplicações à indústria, à economia, em síntese, ao consumo, tornou-se um imperativo absolutamente vital. A economia moderna funciona como a seleção natural em Darwin: de acordo com uma lógica de competição globalizada, uma empresa que não progrida todos os dias é uma empresa simplesmente destinada à morte. Mas o progresso não tem outro fim além de si mesmo, ele não visa a nada além de se manter no páreo com outros concorrentes.
 
Daí o formidável e incessante desenvolvimento da técnica preso ao crescimento econômico e largamente financiado por ele. Daí também o fato de que o aumento do poder dos homens sobre o mundo tornou-se um processo absolutamente automático, incontrolável e até mesmo cego, já que ultrapassa as vontades individuais conscientes. É simplesmente o resultado inevitável da competição. Nesse ponto, contrariamente às Luzes e à filosofia do século XVIII que, como vimos, visavam à emancipação e à felicidade dos homens, a técnica é realmente um processo sem propósito, desprovido de qualquer espécie de objetivo definido: na pior das hipóteses, ninguém mais sabe para onde o mundo nos leva, pois ele é mecanicamente produzido pela competição e não é de modo algum dirigido pela consciência dos homens agrupados coletivamente em torno de um projeto, no seio de uma sociedade que, ainda no século passado, podia se chamar res publica, república: etimologicamente, “negócio” ou “causa comum”. 

O que é a Metafísica? - Richard Taylor

"Uma crença forte demonstra apenas a sua força, não a verdade daquilo que se acredita."
 
Nietzsche - Human, all too human
 
 
"É costume dizer-se que cada um tem sua Filosofia e até que todos os homens têm opiniões metafísicas. Nada poderia ser mais tolo. É verdade que todos os homens têm opiniões, e que algumas delas - tais como as opiniões sobre religião, moral e o significado da vida - confinam com a Filosofia e a Metafísica, mas raros são os homens que possuem qualquer concepção de Filosofia e ainda menos os que têm qualquer noção de Metafísica.
 
William James definiu algures a Metafísica como "apenas um esforço extraordinariamente obstinado para pensar com clareza". Não são muitas as pessoas que assim pensam, exceto quando seus interesses práticos estão envolvidos. Não têm necessidade de assim pensar e, daí, não sentem qualquer propensão para o fazer. Excetuando algumas raras almas meditativas, os homens percorrem a vida aceitando como axiomas, simplesmente, aquelas questões da existência, propósito e significado que aos metafísicos parecem sumamente intrigantes. O que sobretudo exige a atenção de todas as criaturas, e de todos os homens, é a necessidade de sobreviver e, uma vez que isso fique razoavelmente assegurado, a necessidade de existir com toda a segurança possível. Todo pensamento começa aí, e a sua maior parte cessa aí. Sentimo-nos mais à vontade para pensar como fazer isto ou aquilo. Por isso a engenharia, a política e a indústria são muito naturais aos homens. Mas a Metafísica não se interessa, de modo algum, pelos "comos" da vida e sim apenas pelos "porquês", pelas questões que é perfeitamente fácil jamais formular durante uma vida inteira.

O racionalismo como filosofia profana - René Guenon

"Mais tarde, ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia [...]"
 
Descartes, "Discurso sobre o Método"
 
 
"A palavra “filosofia”, em si mesma, pode seguramente ser tomada num sentido muito legítimo, que foi sem dúvida o seu sentido primitivo, sobretudo se é verdade, como se pretende, que foi Pitágoras o primeiro a utilizá-la. Etimologicamente, significa “amor à sabedoria”; designa portanto, primeiramente, uma disposição prévia requerida para alcançar a sabedoria, e pode designar também, por uma natural extensão, a procura que, nascendo dessa disposição, deve conduzir ao conhecimento. É então apenas um estágio preliminar e preparatório, um caminhar para a sabedoria, um grau correspondente a um estado inferior a esta. O desvio que se produziu depois consistiu em tomar este grau transitório pelo próprio fim, em pretender substituir a sabedoria pela “filosofia”, o que implica o esquecimento ou o desconhecimento da verdadeira natureza desta última.
 
Foi assim que nasceu o que nós podemos chamar de Filosofia “profana”, ou seja, uma pretensa sabedoria puramente humana, portanto de ordem simplesmente racional, tomando o lugar da verdadeira sabedoria tradicional, supra-racional e “não humana”. No entanto, subsistiu ainda alguma coisa desta através de toda a Antiguidade; o que o prova é primeiramente a persistência dos “mistérios”, cujo caráter essencialmente “iniciático” não pode ser contestado, e também o fato de que o ensino dos próprios filósofos tinha simultaneamente, na maior parte dos casos, um lado “exotérico” e um lado “esotérico”, este último permitindo a ligação a um ponto de vista superior, que se manifesta de maneira muito nítida, embora talvez incompleta em certos aspectos, alguns séculos mais tarde, entre os Alexandrinos. Para que a Filosofia “profana” fosse definitivamente constituída como tal, foi preciso que só o “exoterismo” permanecesse e que se fosse até à negação pura e simples de todo o “esoterismo”; foi precisamente a isso que conduziu, entre os modernos, o movimento começado pelos gregos. As tendências que se tinham afirmado entre estes foram levadas até às suas conseqüências mais extremas, e a importância excessiva que eles tinham atribuído ao pensamento racional acentuou-se ainda, para chegar ao “racionalismo”, atitude especialmente moderna que consiste não apenas em ignorar, mas em negar expressamente tudo o que é de ordem supra-racional. Mas não anteciparei demasiado, porque devo voltar a falar destas conseqüências e a ver o desenvolvimento delas numa ou outra parte da minha exposição.

Como senhores e possuidores da Natureza - Descartes

"Jamais dei muita atenção às coisas que provinham de meu espírito, e, à medida que não colhi outros frutos do método que emprego, exceto que fiquei satisfeito em relação a algumas dificuldades que dizem respeito às ciências especulativas, ou então que tentei pautar meus hábitos pelas razões que ele me ensinava, não me considerei obrigado a nada escrever acerca dele. Pois, no que se refere aos hábitos, cada qual segue de tal maneira sua própria opinião que se poderia encontrar tantos reformadores quantas são as cabeças, se fosse permitido a outros, além dos que Deus estabeleceu como soberanos dos povos, ou então aos que concedeu suficiente graça e diligência para serem profetas, tentar mudá-los em algo; e, apesar de que minhas especulações me agradassem muito, pensei que os outros também tinham as suas que lhes agradariam talvez mais. Porém, apenas adquiri algumas noções gerais concernentes a física, e, começando a comprová-las em várias dificuldades particulares, percebi até onde podiam conduzir e quanto diferem dos princípios que haviam sido utilizados até o presente, considerei que não podia mantê-las escondidas sem transgredir a lei que nos obriga a procurar, no que depende de nós, o bem geral de todos os homens. 

A contribuição do pensamento grego para a formação moral

Texto de João Cardoso de Castro
 
Muito pode se falar sobre o certo e o errado, e em nosso dia-a-dia julgamos, consciente ou inconscientemente, pessoas a nossa volta, seus hábitos e comportamentos. Quando se trata de filosofia, por sua vez, questiona-se como deveríamos viver, quais os comportamentos ideais e se existe uma disciplina filosófica que poderíamos chamá-la de prática, esta seria, sem dúvida, a Ética. Toda reflexão que pretende identificar a melhor forma de viver e conviver se articula, necessariamente, com o estudo da moral. 
 
É lugar comum a ideia de que a crise ética que vivemos nos dias de hoje tem sua origem na perda de valores e normas que, de alguma forma, vem à tona no período moderno, com o surgimento de sociedades complexas, com uma pluralidade de crenças, ideologias e comportamentos. O advento da Reforma, por exemplo, (e das inúmeras correntes protestantes oriundas deste processo) cria uma cisão no Cristianismo, que fundamentava-se como principal referência ética desde a Antiguidade. Outros sugerem que esta crise "espiritual", sem precedentes, que atinge a civilização ocidental seja fruto da irrefreável produção de bens materiais e simbólicos que, amarrados a uma visão liberal, é capaz de fazer “brotar” em nós uma ambição quase capilar por toda esta parafernália produzida.

Ética: um manifestação de potencialidade - Agamben

"Ao contrário de sua acepção comum, em que podemos acusar alguém de ter ou não ética, o éthos estabelece uma dimensão originária para o homem e todas as suas ações. Ele é essencialmente livre porque é ético, lança-se na diferença do ser. Em todos os momentos da civilização, a ética poética consiste em cuidar para que o outro seja o que ele é, o que não pode ser removido ou apagado nem mesmo na morte."
 
Denise Quintão - Ética e Responsabilidade na Vida
 
 
"The fact that must constitute the point of departure for any discourse on ethics is that there is no essence, no historical or spiritual vocation, no biological destiny that humans must enact or realize. This is the only reason why something like an ethics can exist, because it is clear that if humans were or had to be this or that substance, this or that destiny, no ethical experience would be possible - there would be only tasks to be done. This does not mean, however, that humans are not, and do not have to be, something, that they are simply consigned to nothingness and therefore can freely decide whether to be or not to be, to adopt or not to adopt this or that destiny (nihilism and decisionism coincide at this point). There is in effect something that humans are and have to be, but this something is not an essence nor properly a thing: It is the simple fact of one’s own existence as possibility or potentiality. But precisely because of this things become complicated; precisely because of this ethics becomes effective. 
 
Since the being most proper to humankind is being one’s own possibility or potentiality, then and only for this reason (that is, insofar as humankind’s most proper being – being potential– is in a certain sense lacking, insofar as it can not-be, it is therefore devoid of foundation and humankind is not always already in possession of it), humans have and feel a debt. Humans, in their potentiality to be and to not-be, are, in other words, always already in debt; they always already have a bad conscience without having to commit any blameworthy act. This is all that is meant by the old theological doctrine of original sin. Morality, on the other hand, refers this doctrine to a blameworthy act humans have committed and, in this way, shackles their potentiality, turning it back toward the past. The recognition of evil is older and more original than any blameworthy act, and it rests solely on the fact that, being and having to be only its possibility or potentiality, humankind fails itself in a certain sense and has to appropriate this failing – it has to exist as potentiality. Like Perceval in the novel by Chretien de Troyes, humans are guilty for what they lack, for an act they have not committed.

A filosofia serve para entristecer - Deleuze

"Diógenes objectou, quando louvaram um filósofo diante dele: O que ele tem de grandioso para mostrar, ele que se dedicou tanto tempo à filosofia sem nunca entristecer ninguém? Com efeito, seria preciso colocar como epitáfio sobre o túmulo da filosofia universitária: Ela não entristeceu ninguém."

Nietzsche, "Schopenhauer como educador"

 

"Quando alguém pergunta para que serve a filosofia, a resposta deve ser agressiva, visto que a pergunta pretende-se irônica e mordaz. A filosofia não serve nem ao Estado, nem à Igreja, que têm outras preocupações. Não serve a nenhum poder estabelecido. A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas. Existe alguma disciplina, além da filosofia, que se proponha a criticar todas as mistificações, quaisquer que sejam sua fonte e seu objetivo? Denunciar todas as ficções sem as quais as forças reativas não prevaleceriam. Denunciar, na mistificação, essa mistura de baixeza e tolice que forma tão bem a espantosa cumplicidade das vítimas e dos algozes. Fazer, enfim, do pensamento algo agressivo, ativo, afirmativo. Fazer homens livres, isto é, homens que não confundam os fins da cultura com o proveito do Estado, da moral, da religião. Vencer o negativo e seus altos prestígios. Quem tem interesse em tudo isso a não ser a filosofia? A filosofia como crítica mostra-nos o mais positivo de si mesma: obra de desmistificação. […] tolice e a bizarria, por maiores que sejam, seriam ainda maiores se não subsistisse um pouco de filosofia para impedi-las, em cada época, de ir tão longe quanto desejariam, para proibi-las, mesmo que seja por ouvir dizer, de serem tão tolas e tão baixas quanto cada uma delas desejaria. Alguns excessos lhes são proibidos, mas quem lhes proíbe a não ser a filosofia? Quem as força a se mascararem, a assumirem ares nobres e inteligentes, ares de pensador? Certamente existe uma mistificação propriamente filosófica; a imagem dogmática do pensamento e a caricatura da crítica são testemunhos disso. Mas a mistificação da filosofia começa a partir do momento em que esta renuncia a seu papel ... dismitificado e faz o jogo dos poderes estabelecidos, quando renuncia a contrariar a tolice, a denunciar a baixeza."

 

(Deleuze, "Nietzsche e a filosofia", 1987, p. 87)

 

Platão - o uno e o múltiplo

"Assim, nesta primeira acepção, não existe verdadeira dualidade na separação platônica, uma vez que só a ideia é, realmente, o ser; o que existe é uma dualidade de «visadas», uma real, porque vê, e outra aparente, porque só vê a aparência, ou, o que é o mesmo, porque só na aparência vê."
 
António Pedro Mesquita
 
 
"Ora, o ponto de vista platônico tem um nome e pode ser designado: uno e múltiplo. A perspectiva própria do pensamento platônico é, pois, a da relação, ou melhor, de uma certa relação, entre unidade e multiplicidade, que a lógica que tradicionalmente sobre ela incide, de matriz aristotélica, não pode apreender sem imediatamente alterar. É certo que também a perspectiva de toda a tradição filosófica e de algum modo o eixo fundamental da lógica que a serve pode ser caracterizada como uma perspectiva de uno e múltiplo - pelo que se diria não ser deste modo que se afirma a diferença do filosofar platônico. E, como é igualmente certo que é outrossim uma perspectiva de uno e múltiplo a que, com justiça, semelhante tradição tem, desde Aristóteles, encontrado na base do pensamento platônico, dir-se-ia neste ponto que não é decerto também por aqui que se pode afirmar a diferença de qualquer interpretação que repita esse encontro, enquanto justamente o repete. 
 
O problema é, todavia, o de que essa perspectiva de uno e múltiplo não é a mesma nos dois casos - ou, de outro modo, que a lógica do pensamento platônico nunca é uma lógica aristotélica antecipada. E nesta medida, para circunscrever o proprium do filosofar platônico, não basta apontar o uno e o múltiplo como sua perspectiva reitora: é preciso perspectivá-la platonicamente, de tal modo que o próprio ponto de vista platônico seja visto platonicamente e a própria questão do uno e do múltiplo preliminarmente circunscrita no específico sentido que lhe atribui Platão.

Platão e a desvirtuação de sua filosofia

Danielle Montet, pesquisadora e professora de filosofia em Toulouse, especialista em platonismo e neoplatonismo, fez um estudo magistral sobre os termos-chaves em Platão, "Les traits de l'être", tendo como pano de fundo sua compreensão do pensamento de Heidegger. Parte de sua reflexão é justamente a desvirtuação dos intérpretes de Platão que, em sua análise, não foram capazes de combinar filologia com dialética (arte essencial na exposição de Platão) na interpretação de termos relevantes para alcançar a devida compreensão de Platão. Os termos ousia, eidos e idea, geralmente traduzidos, de forma pobre, por essência, forma e ideia, são compreendidos apenas como acepções encerradas nos próprios termos, e não noções significadas também pela dialética platônica e, por isso, acabam reduzidos a uma interpretação equivocada, que dá lugar à dualidade que comumente se atribui ao pensamento platônico, afirmando a existência de dois mundos (mundo inteligível e mundo sensível).
 
A tradição filosófica assimila Platão, na leitura, no comentário e no uso que faz de sua obra, ao instituidor de termos cuja evidência marcou toda a história da filosofia. Seria possível escrever filosoficamente fora dos termos platônicos que a tradição filosófica retoma ou critica? Para sempre a ousia vem confundir a distinção serena da essência e da existência, o eidos assombrar a eidética, a idea legitimar todos os idealismos; tantos termos que se formaram em conceitos que incontestavelmente testificam por sua fortuna a vã nomotética de Platão. Todavia, a disponibilidade dos termos platônicos, a familiaridade que toleram, ocultam a segunda figura em operação no Crátilo, aquela do dialético, sem o qual a produção nomotética perde toda significação. Herdeira do léxico, dos instrumentos, a tradição o foi. Mas que fez ela do dialético? Este, reconhecido como o praticante da “ciência mais elevada”, viveu dias gloriosos e pôs a pedra angular do edifício do platonismo. Mas secundarizando seu papel, esquece-se a lição do Crátilo, segundo a qual só aquele que sabe usar a palavra-instrumento na arte da dialética pode dar conta da palavra ela mesma, arrancá-la da erosão da usura. O texto platônico, tecido tramado segundo uma nomotética e uma dialética, não sai indene de uma leitura que pretenda desjuntá-las e se esquiva a toda apreensão que tente fazer qualquer economia desta articulação.
 
Danielle Montet (1990), Les traits de l'être. Essai sur l'ontologie platonicienne. Jérôme Millon, Paris (pg 5)
 

A banalidade do mal - Hannah Arendt

"[...] o que me deixou aturdida foi que a conspícua superficialidade do agente tornava impossível retraçar o mal incontestável de seus atos, em suas raízes ou motivos, em quaisquer níveis mais profundos. Os atos eram monstruosos, mas o agente -- ao menos aquele que estava em julgamento -- era bastante comum, banal, e não demoníaco e monstruoso. Nele não se encontrava sinal de firmes convicções ideológicas ou de motivações especificamente más, e a única característica notória que se podia perceber tanto em seu comportamento anterior quanto durante o próprio julgamento e o sumário de culpa que o antecedeu era algo de inteiramente negativo: não era estupidez, mas irreflexão."
 
Hannah Arendt, "A Vida do Espírito"
 
 
Hannah Arendt, no início de sua notável conferência na prestigiosa Gifford Lectures, relembra sua constatação diante do julgamento do carrasco nazista Eichmann: a "banalidade do mal" é justamente o mal se apresentando na total e absoluta "ausência de pensar".
 
"Foi essa ausência de pensamento — uma experiência tão comum em nossa vida cotidiana, em que dificilmente temos tempo e muito menos desejo de parar e pensar — que despertou meu interesse. Será o fazer-o-mal (pecados por ação e omissão) possível não apenas na ausência de "motivos torpes" (como a lei os denomina), mas de quaisquer outros motivos, na ausência de qualquer estímulo particular ao interesse ou à volição? Será que a maldade — como quer que se defina este estar "determinado a ser vilão" — não é uma condição necessária para o fazer-o-mal? Será possível que o problema do bem e do mal, o problema de nossa faculdade para distinguir o que é certo do que é errado, esteja conectado com nossa faculdade de pensar? Por certo, não, no sentido de que o pensamento pudesse ser capaz de produzir o bem como resultado, como se a "virtude pudesse ser ensinada" e aprendida — somente os hábitos e costumes podem ser ensinados e nós sabemos muito bem com que alarmante rapidez eles podem ser desaprendidos e esquecidos quando as novas circunstâncias exigem uma mudança nos modos e padrões de comportamento. (O fato de que habitualmente se trata de assuntos ligados ao problema do bem e do mal em cursos de "moral" ou de "ética" pode indicar quão pouco sabemos sobre eles, pois moral deriva de mores e ética de ethos, respectivamente os termos latino e grego para designar os costumes e os hábitos — estando a palavra latina associada a regras de comportamento e a grega sendo derivada de habitação, como a nossa palavra "hábitos"). A ausência de pensamento com que me defrontei não provinha nem do esquecimento de boas maneiras e bons hábitos, nem da estupidez, no sentido de inabilidade para compreender— nem mesmo no sentido de "insanidade moral", pois ela era igualmente notória nos casos que nada tinham a ver com as assim chamadas decisões éticas ou os assuntos de consciência.

Nietzsche e o fim da Metafísica - Oswaldo Giacóia

"A partir de muita convivência com o mesmo tema e de uma vida dedicada a isso, subitamente, como a luz nascida do fogo, brota na alma a verdade, para então crescer sozinha."
 
Platão, "Carta VII"
 
 
"Para Nietzsche, pode-se tomar a filosofia de Platão como modelo da metafísica. Esta se fundamenta numa concepção dualista do universo, estabelecendo uma oposição de valores entre duas esferas distintas da realidade ou do ser: de um lado, existe um domínio ideal, considerado como o verdadeiro mundo ou a realidade verdadeira, assim denominado por ser o plano das essências, isto é, aquilo que, em todo e qualquer fenômeno constitui sua pura forma ou conceito. Assim, por exemplo, a humanidade constitui a essência de cada ser humano particular, ou a triangularidade determina a natureza de toda e qualquer figura triangular que vemos ou traçamos. Todos os indivíduos humanos concretos são limitados e finitos, mas a humanidade é uma entidade intelectual, que em nada se altera em virtude da sucessão dos indivíduos singulares.
 
Tais formas puras, denominadas tecnicamente idéias por Platão, teriam sua origem na idéia do Bem — ou de Deus — que é a causa produtora de todas as outras idéias que são as formas gerais do universo.Tais entidades são inacessíveis a nossos órgãos dos sentidos; e imutáveis, uma vez que não estão submetidas às leis do espaço e do tempo. Por serem as responsáveis pela realidade de todo real, foram tradicionalmente denominadas realidade inteligível, em contraposição a uma segunda ordem de realidade, a realidade aparente ou sensível, que é aquela de que temos experiência ordinária. Contraposto às essências inteligíveis, o mundo sensível é tradicionalmente considerado um plano de realidade deficitária, enganosa, mera aparência ou simulacro das formas puras, que são como originais ou modelos dos quais toda realidade empírica, sensível, constitui uma cópia, necessariamente imperfeita e corruptível. E a essa realidade degradada, sujeita às condições do espaço e do tempo, que pertence nossa existência terrena e corporal.

Saber científico e método - Mário Ferreira dos Santos

"Distinguimos nos artigos anteriores o saber vulgar do saber científico. O homem moderno, quando culto, entremeia, no entanto, em seus conhecimentos vulgares, muito do conhecimento científico; assim também o homem vulgar, mas em escala menor. Esta a razão por que uma distinção nítida é impossível. Estudamos a formação do saber teórico, em "Filosofia e Cosmovisão", e a do saber científico como estágio posterior. O saber científico leva à formação da ciência como conjunto de conhecimento certos e prováveis, que são fundados metodicamente e dispostos sistematicamente, segundo os respectivos objectos. Embora esse enunciado não seja uma definição, pois poderia confundir-se com o sentido da filosofia, poderíamos acrescentar que, na ciência, o saber se prende à experiência e ao experimentável, sem nunca transcendê-lo, enquanto, na filosofia, se dá essa transcendência.
 
Falamos em conhecimentos prováveis, pois todos sabemos que a ciência se funda em hipóteses e trabalha com probabilidades, sobretudo quando emprega o método inductivo que encerra muito de probabilidade, embora num grau elevado. A ciência se afasta do dogmatismo, pois o verdadeiro cientista oferece suas conclusões, e espera que seus pares as examinem e analisem. A ciência trabalha com o geral, não há ciência do singular. Entre as formas do saber científico, podemos salientar o saber matemático, que trabalha com os objectos matemáticos, objectos ideais, de que já tratamos. A lógica também tem um objecto ideal. Todas as outras ciências que têm objectos reais, temporais, são chamadas de ciências naturais (a física, a química, a biologia, etc).

A vida é o que podemos ser - Ortega y Gasset

"[...] de repente a multidão tornou-se visível, instalou-se nos lugares preferenciais da sociedade. Antes, se existia, passava despercebida. Ocupava o fundo do cenário social; agora, antecipou-se às baterias, tornou-se o personagem principal. Já não há protagonistas, só coro."
 
Ortega y Gasset, Rebelião das Massas
 
 
"Este ensaio quisera vislumbrar o diagnóstico de nosso tempo, de nossa vida atual. Vai enunciada a primeira parte dele, que pode resumir-se assim: nossa vida, como repertório de possibilidades, é magnífica, exuberante, superior a todas as historicamente conhecidas. Mas assim como seu formato é maior, transbordou todos os caminhos, princípios, normas e ideais legados pela tradição. É mais vida que todas as vidas, e por isso mesmo mais problemática. Não pode orientar-se no pretérito. Tem de inventar seu próprio destino. Mas agora é preciso completar o diagnóstico.
 
A vida, que é, antes de tudo, o que podemos ser, vida possível, é também, e por isso mesmo, decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. A circunstância - as possibilidades - é o que de nossa vida nos é dado e imposto. Isso constitui o que chamamos o mundo. A vida não elege seu mundo, mas viver é encontrar-se, imediatamente, em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. Nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra nossa vida. Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil, cuja trajetória está absolutamente predeterminada. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo - o mundo é sempre este, este de agora - consiste em todo o contrário. Em vez de impor-nos uma trajetória, impõe-nos várias e, consequentemente, nos força... a eleger. Surpreendente condição a de nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem um só instante se deixa descansar nossa atividade de decisão. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir, decidimos não decidir.

Galileu - um mito da Modernidade

"A verdadeira missão de Galileu foi de aportar aos ocidentais a tecnociência da qual eles sonhavam desde muito tempo. A saber uma ciência destacada de toda perspectiva espiritual, puramente operatória, astuciosamente adaptada aos hábitos mentais e às necessidades materiais dos burgueses modernos."
 
Pierre Thuillier, La Grand Implosion
 
 
"Na mitologia da modernidade, o processo de Galileu constitui um dos mitos poderosos. Este processo em sua versão mítica, assinalaria um momento de inflexão na história do mundo, um momento em que um espírito independente se levantou face às forças das trevas. Há tão pouca verdade nesta imagem quanto no relato das experiências de Galileu na Torre de Pisa. Um dos melhores historiadores da atualidade (Pietro Redondi) fala da “proteção espetacular que o Papa Urbano VIII aportou a Galileu” (apud Marejko, 1989).
 
Além do mais, a mais cursiva leitura da mais modesta biografia de Galileu nos mostra ele profundamente ligado à Igreja e ajudado por numerosos eclesiásticos. Embora tenha sido interrogado pela Inquisição, jamais foi torturado e, durante sua confortável estadia em Roma quando deste interrogatório, ele tinha dois servidores, um para a mesa e outro para seu quarto.
 
Assim, apesar da propaganda contrária, a ciência moderna não é tanto o fruto de uma resistência do espírito de livre exame às pressões obscurantistas da tradição mas o fruto desta tradição mesma. É verdade que este fruto, em certo sentido, está envenenado, na medida que a ciência moderna nos põe em um "universo desencantado", não por nos conduzir por um caminho de conhecimento do universo, mas ao contrário, por um caminho de manipulação do universo."
 
Marejko, Jan (1989), Le territoire métaphysique. L'Age d'homme, Paris, pg. 151
 

O que é "fenômeno" - Heidegger

A tarefa que desafia o pensamento atual não tem quaisquer precedentes. E exige uma forma de pensar completamente nova. Esse novo modo de pensar é mais fácil que a filosofia convencional, mas também é mais difícil, porque exige um uso mais cuidadoso da linguagem.
 
Heidegger, "BBC - Human, All Too Human"
 
"A expressão grega, a que remonta o termo "fenômeno", significa: mostrar-se e, por isso, diz o que se mostra, o que se revela. Já em si mesmo, porém, é a forma média de trazer para a luz do dia, pôr no claro, a claridade, isto é, o elemento, o meio, em que alguma coisa pode vir a se revelar e a se tornar visível em si mesma. Deve-se manter, portanto, como significado da expressão "fenômeno" o que se revela, o que se mostra em si mesmo. "Os fenômenos" constituem, pois, a totalidade do que está à luz do dia ou se pode pôr à luz, o que os gregos identificavam, algumas vezes, simplesmente com: (os entes), a totalidade de tudo que é. Ora, o ente pode-se mostrar por si mesmo de várias maneiras, segundo sua via e modo de acesso. Há até a possibilidade de o ente mostrar-se como aquilo que, em si mesmo, ele não é. Neste modo de mostrar-se, o ente "se faz ver assim como..." Chamamos de aparecer, parecer e aparência (Scheinen) a esse modo de mostrar-se. Em grego, a expressão, "fenômeno", possui também o significado do que "se faz ver assim como", da "aparência", do que "parece e aparece"; designa um bem, que se deixa e faz ver como se fosse um bem, mas que "na realidade" não é assim como se dá e apresenta. A compreensão posterior de fenômeno depende de uma visão de como ambos os significados de fenômeno (fenômeno como o que se mostra, e fenômeno como aparecer, parecer e aparência) se interrelacionam em sua estrutura. 

Aristóteles - por uma vida boa

The selfish, they're all standing in line.. Faithing and hoping to buy themselves time.. Me, I figure as each breath goes by, I only own my mind [...] I know I was born and I know that I'll die.. The in between is mine, I am mine [...] 

The ocean is full 'cause everyone's crying.. 
The full moon is looking for friends at hightide.. The sorrow grows bigger when the sorrow's denied, I only know my mind, I am mine [...]

 
Eddie Vedder, "I Am Mine"

 

"[...] como ele era quando jovem? Não temos documentos privados desse período, mas sabemos de um belo ensaio, a Exortação à Filosofia, que ele publicou aos seus trinta e poucos anos. Esse ensaio revela uma trama bem diferente no tecido do pensamento de Aristóteles e complementa aquilo que seu testamento nos conta sobre ele.

As boas coisas de que gozamos, Aristóteles diz, como a riqueza e a saúde, não têm nenhum valor se nossa alma não for boa. Da mesma maneira como a alma é superior ao corpo, a parte racional da alma é superior à parte irracional. A melhor coisa que podemos fazer é promover o que há de melhor na melhor parte de nós, que é ser tão racional quanto possível e passar a conhecer as coisas mais importantes. Esse estado de conhecimento é uma virtude em si mesmo e traz consigo suas próprias recompensas, já que nós naturalmente gostamos de compreender as coisas. É natural e certo para nós tornarmo-nos animais racionais e, se não o fizermos, então poderemos ser homens vivos, mas não estaremos vivendo como homens; poderemos ter prazer enquanto vivermos, sem ter prazer em viver. A única maneira de realizarmos nossa natureza humana é realizar nossa natureza divina, e a mente é o elemento divino em nós; em virtude de possuirmos razão, podemos aproximar-nos do feliz estado dos deuses. "O homem destituído de percepção e de mente é reduzido à condição de uma planta; destituído tão-somente de mente é tornado um bruto; destituído de irracionalidade, mas conservando a mente, torna-se como Deus.

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